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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A necessária redução da jornada de trabalho

No começo da minha vida profissional, após formada pela UEM, na área de informática, trabalhei como programadora de computador e analista de sistemas em uma grande rede de supermercado (que não existe mais). O horário de trabalho era de 8 horas por dia e aos sábados. Entravamos às 8h e saímos às 18, com  1h de almoço e aos sábados, das 8 às 12. Havia compensação durante a semana para não trabalhar aos sábados o dia todo. Já no estágio, em Londrina, vivenciei a jornada de trabalho e o pouco tempo que as pessoas possuíam pra cuidar de suas casas, crianças etc. A mesma situação ocorria em uma grande cooperativa agrícola da região, na qual fui analista de sistemas e programadora.

A partir dessas experiências, me chamava muito a atenção o tempo que as pessoas passavam no trabalho em comparação com o tempo mínimo que passavam com suas famílias ou outras atividades. Havia o comentário de que era trabalho remunerado em regime de escravidão, pois as pessoas não tinham tempo pra elas, apenas para o trabalho. Quem não trabalhava aos sábados era por compensação em horas a mais  de segunda a sexta-feira.

Estamos falando de experiências particulares nos anos 1980 e, naquela época alguns países começavam a experimentar jornadas diárias menores do que as jornadas de 8h, com resultados considerados relevantes em termos de produtividade e contribuição de funcionários e funcionárias.

Acabar com a escala 6 x 1 (trabalhar seis dias e descansar um dia), obviamente, não abala o sistema capitalista, pois foi comprovado por algumas experiências que essa redução de jornada, tendo 5 dias trabalhados e dois dias de descanso (5x2) impacta positivamente na lucratividade das empresas e não afunda o país como alguns contrários afirmam.

Para as mulheres trabalhadoras, por sua vez, a redução da jornada contribui para uma melhora considerável de qualidade de vida, pois, em sua maioria, elas chegam, em seus finais de semana ou dia de descanso,  com a escala da faxina de suas casas, da lavagem de roupas etc, ou seja, transformam seu dia de descanso em mais um dia de trabalho, o que significa, na prática, uma escala de 7x0, sete dias trabalhados e nenhum dia de descanso.

Muitas mudanças, também,  ocorreram no mundo do trabalho desde a última  reforma trabalhista de 2017, que levou as pessoas a situações como pjtização, terceirização, uberização, trabalho informal, trabalho on line e tantas outras, nas quais as pessoas acreditam que são donas de seu próprio trabalho, não dependem da CLT, mas no entanto, seguem desprotegidas agora e no futuro e, continuam trabalhando sem tempo para si e suas famílias.

Por fim, acredito que seja importante e necessária a aprovação de uma jornada de trabalho menor para que as pessoas tenham mais tempo para viver com dignidade e possibilidade de estar mais dias com sua família ou realizar atividades de esporte, cultura ou lazer ou outras que as interessem.


Imagem extraída da Internet


segunda-feira, 20 de abril de 2026

A classe trabalhadora sai em desvantagem na corrida eleitoral

Dados divulgados, recentemente, apontam que dos 594 parlamentares que compõem o Congresso Nacional, 273 são empresários e 160 são fazendeiros, totalizando 72% das cadeiras ocupadas por representantes desses setores. (https://lermais.com.br/congresso-dominado-empresarios-e-fazendeiros-ocupam-72-das-cadeiras-2/) Outro dado demonstra que, também, menos de 20% das cadeiras no Congresso são ocupadas por  mulheres.

Essa concentração de lideranças ligadas ao empresariado e fazendeiros, homens brancos, conservadores e ricos, em sua maioria, torna-se um desafio para as pautas necessárias para o conjunto da população, tais como as políticas públicas de moradia, educação e saúde e condições de trabalho, combate à violência contra a mulher, contra o racismo e contra homofobia e, também, na defesa do meio ambiente. Muitas dessas políticas públicas deixam nítida a postura desse grupo dos deputados na Câmara, notadamente com votos contra os interesses da maioria da população. Não se trata, portanto, apenas de uma posição ideológica, pois muitos destes deputados consideram que as políticas públicas, mesmo de interesse nacional, vão contra seus interesses econômicos e financeiros particulares.

Essa situação da concentração de eleitos/as da classe empresarial é reproduzida, também, nas câmaras municipais e assembleis legislativas estaduais. No executivo (prefeituras, estados e governo federal), a situação não é diferente, temos poucas prefeitas e governadoras e tivemos apenas uma mulher na Presidência da República.

Além de se candidatarem pra defender suas mordomias, classe social etc e viver às custas do Estado que tanto atacam, os empresários e fazendeiros eleitos defendem o sistema como está ou apresentam projetos pra penalizar a classe trabalhadora, aqui incluídos a classe média assalariada e profissionais liberais ou autônomos, os quais não se enxergam como trabalhadores/as. Um exemplo é a redução de jornada de trabalho para 5x2 (cinco dias trabalhados para dois dias de descanso), a qual gera polêmica com alegações equivocadas de quebra econômica, incentivo à vagabundagem de trabalhadores se a nova escala de trabalho for aprovada ou, ainda, absurdos como bolsa patrão para compensar a suposta perda econômica.

Pela legislação eleitoral, todos e todas, maiores de idade, podem se candidatar, independente de sexo, religião, raça, etnia ou posição ideológica. (https://www.jusbrasil.com.br/artigos/quais-os-requisitos-necessarios-para-se-concorrer-a-uma-eleicao-no-brasil/1150140742) No entanto, pra fazer campanha, mesmo existindo fundo eleitoral, a pessoa candidata precisa de tempo e dinheiro. Exatamente nessa necessidade de tempo e dinheiro que as diferenças começam na largada eleitoral, inclusive na chamada “pré-campanha” que na prática, é campanha eleitoral.

Quando alguém da classe trabalhadora se candidata, se não for demitido por ser de outra posição ideológica diferente do patrão/patroa, não terá licença e só poderá fazer campanha no período que sobra e nos finais de semana. Ao contrário, o empresário ou empresária (ou fazendeiro ou financiados por eles) que se candidata poderá fazer campanha quando e como quiser.

Então, na corrida eleitoral, trabalhadores e trabalhadoras saem em desvantagem e com muitos obstáculos à frente, desde a largada, pois além de buscar votos, precisam cumprir suas obrigações no mundo do trabalho para sobreviver. Destaca-se que  as mulheres saem em mais desvantagem do que os homens, pois lidam com a dupla jornada de trabalho e ao incluir a política, se sobrecarregam ainda mais, além do preconceito e da violência política que sofrem.

Esse desequilíbrio de representação na política reforça distorções existentes na sociedade para as ações de igualdade e se torna um desafio para a democracia pois, ao mesmo tempo que as pessoas podem se candidatar e serem eleitas, a maior parcela da população tem mais dificuldade e menos visibilidade para ser eleita para um cargo legislativo ou executivo.

Isso precisa mudar!

Imagem extraída da Internet


terça-feira, 31 de março de 2026

O valor dos números e a arrogância numérica

Duas frases me chamaram a atenção recentemente. Não vou dizer o nome das pessoas e nem o contexto. O que interessa é o conteúdo e o valor dado por elas.

- façam mais de 100 mil votos como eu fiz e depois conversamos;

- quando a pessoa tiver mais de 50 mil seguidores como eu, darei atenção a ela.

Desde crianças, aprendemos sobre os números, quando começamos a usar os dedinhos pra contar 1, 2 3... ou até 10 pra brincar de esconde-esconde. Depois, para algumas crianças, os números se tornam um tormento ligados ao ensino da matemática. Quem não se lembra da famosa tabuada?

 E quando as crianças crescem são marcadas com números. Aliás, desde alguns anos, as crianças tem CPF desde que nascem. Aí vem o número da classificação no vestibular, se fizer, o salário, as notas e as contas pra pagar. Enfim, o número não é apenas o da casa que moramos ou do RG, ele está em tudo e pauta nossa existência.

Na sua definição básica, o “número é uma entidade matemática fundamental e abstrata, utilizado para caracterizar a contagem, a ordenação, medição ou identificação .  Os números possuem uma relação com elementos quaisquer, sejam reais ou não.” https://www.todamateria.com.br/numeros/

Entretanto, pela história, os números passaram a representar a riqueza ou a pobreza dos povos e das pessoas, o poder de alguns sobre outros e a classificar quem tem mais ou tem menos poder. Da contagem das pedras a contagem do lançamento de mísseis, tivemos muitas versões para a representação dos números.

E chegamos ao processo eleitoral e ao uso das redes digitais, os quais tem, em comum, a disseminação de informações, verdadeiras ou duvidosas, que alcança um número imenso de pessoas.

Dentro deste contexto, surge um novo valor dado ao número: o número de quantas pessoas são alcançadas ou alcançáveis, como se isso fosse sinônimo de uma espécie de riqueza ou capital.

E assim, tem-se o que pode ser chamado de “arrogância numérica” que faz com que tanto um político eleito como um influenciador digital se sintam empoderados e mais importantes do que as demais pessoas. Não é mais a arrogância do saldo bancário (que as vezes vem junto com a exposição política ou midiática), agora é a exposição que conta.

Claro que as pessoas que expõem suas ideias, tanto na vida política como no mundo virtual, ou em ambos, querem ser ouvidas, lidas, curtidas e divulgadas, afinal são espaços importantes para apresentar seus pensamentos e propostas.

O problema é quando essa ação e esse alcance se tornam moeda de valor em detrimento de outros valores. Ouvir quem não fez votos ou quem não usa as redes digitais, mas possui experiência e conhece bem sua própria área de trabalho ou atuação pode contribuir muito para novas soluções, novas ideias e novos movimentos.

Afinal, as pessoas podem não ter tantos votos ou nem seguidores, mas elas têm acesso à uma urna eletrônica, numa eleição democrática, na qual podem digitar os números de seus candidatos ou candidatas e, aí, está o símbolo do seu poder ao digitar o número no qual acredita.

Esse poder, numa democracia, tem mais valor numérico do que muitas pessoas possam imaginar, pois a pessoa vai definir os rumos que deseja para sua cidade, seu estado ou seu país.

Então, vamos dar atenção, também, para aquelas pessoas que não fizeram e nem farão 100 mil votos, não têm e nem terão 50 mil seguidores, pois esses números podem ser passageiros e não terem significado,  se não servirem para melhorar a vida das pessoas.


Imagem extraída da Internet


domingo, 22 de março de 2026

A faca e o boné

Em conversa com minha prima-irmã Rose, relembramos fatos que vivemos com nossos pais, Angelo e Anselmo Sidnei Tait. Irmãos grudados e amorosos que se casaram com duas irmãs, Laura (minha mãe) e Maria Calvi (minha madrinha de crisma) e geraram uma família única, a Calvi Tait. Crescemos juntos e, muitas vezes, pelos sobrenomes que herdamos, as pessoas pesavam que fossemos irmãos. O cuidado deles e delas para conosco sempre foi presente, desde a infância até a vida adulta.

Certamente, meu pai e tio Sid não combinaram, mas foram atores do mesmo cuidado quando eu cursava doutorado em Florianópolis. Talvez por ser a primeira da geração a “voar” pra outras paragens, talvez por me verem como menina, talvez por conhecerem as estradas por terem sido caminhoneiros ao desbravar as terras do norte do Paraná, o fato é que com 36 anos de idade e dirigindo sozinha nas estradas, os dois manifestavam suas preocupações e davam muitos conselhos para a motorista.

Aqui entram a faca e o boné.

A faca de churrasco foi um presente que dei para o meu pai, churrasqueiro da família e do melhor churrasco. Diferente da faca tradicional que ele usava, a que o presentei era uma faca estilizada, com cabo de couro etc. Quando eu comecei a viajar para o doutorado, ele chega pra mim com a faca:

- leva com você, coloca no porta luvas do carro. Vai que você precisa.

- pra que pai, nem sei usar uma faca

- ué, pode precisar pra cortar uma laranja, uma corda...

- tá bom, pai.

 

Entendi o que ele queria dizer, era, no fundo, pra me proteger. Assim, a faca de churrasco com sua bainha de couro morou por anos dentro do porta-luvas de cada carro que tive. Nunca foi usada, mas estava lá e de certa forma, isso o tranquilizava.

O boné foi indicação do tio Sid, num almoço de família.

- menina, perigoso dirigir na estrada sozinha até Florianópolis.

- fica tranquilo tio. Penso assim, vou de Maringá a Apucarana, Apucarana Ponta Grossa, Ponta Grossa Curitiba, Curitiba Joinville,  Joinville Camboriu e  Camboriu Florianópolis. Pronto Cheguei,

- tá bom, mas, pelo menos, põe um boné nessa cabeça pra esconder o cabelo e pensarem que é um homem.

 

Dei risada e falei pra ele  ficar tranquilo que eu era cuidadosa na estrada e não dava bobeira, só parava pra abastecer. Sempre andei com os cabelos presos devido ao  calor  e a cabeleira, mas não usei o boné, ia esquentar mais ainda. Quando tinha almoço de família e ele sabia que eu ia viajar, sei que ficava preocupado. Na chegada, eu telefonava pra ele, ainda não havia celular.

- Cheguei, tio Sid.

- Graças a Deus

Quando eu contava  esses episódios, algumas pessoas diziam que isso era machismo, pois eles não fariam a mesma coisa se eu fosse um homem.

Certamente, pela geração deles e pela sociedade que viviam, eram machistas como muitos e muitas de nós, que nos descontruímos todos os dias na busca de uma sociedade, na qual mulheres e homens sejam tratados da mesma forma em direitos e obrigações.

Mas, pra mim, que recebia todo esse carinho, eu via como muito amor por parte deles, tanto que os chamava de meus dois pais. Privilégio ter um pai e um segundo pai pra cuidar. Sempre ouvi os conselhos dos dois, que foram muitos. Alguns eu sorria, outros eu seguia.

No final das contas, não tive problemas na estrada e comemoramos a defesa do meu doutorado com um almoço em que eles estavam felizes pela conquista da “menina” e por ela parar de “pegar a estrada”.

Mal sabíamos que quatro anos depois, num intervalo de apenas seis meses, os dois iriam embora antes do combinado, acometidos por doenças.

Nossos amores.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Dia Internacional da Mulher: Maringá reúne centenas de pessoas em Ato contra o feminicídio

                                                                                          

A gravidade da situação com os dados alarmantes de feminicídios levou a protestos pelo fim da violência contra a mulher por todo o Brasil, no dia 08 de março, tanto nas capitais como nas cidades polos de regiões.

Em Maringá, centenas de pessoas se reuniram na manhã de domingo, no Ato público “Todos por todas” convocado pelo Fórum Maringaense de Mulheres em apoio ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio. A concentração para o ato público foi realizada na Praça Rocha Pombo.

No convite divulgado pelo Fórum Maringaense de Mulheres foram reproduzidos os dados de feminicídios e agressões contra as mulheres: “. De acordo com o Planalto do Governo, em 2025, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Já o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, coordenado pelo Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em 2025.”

Além das manifestações das entidades do movimento de mulheres, representantes do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Maringá e grupos de mulheres de partidos políticos presentes no ato público em Maringá, três apresentações foram realizadas: o jogral de combate à violência contra a mulher, a roda de capoeira do grupo Salve as Marias e a batucada feminista da Marcha Mundial das Mulheres.

Sob a palavra de ordem Basta de Feminicídio, gritos de “Pela vida das mulheres e das meninas”, dentre outros, o público presente realizou caminhada pela feira livre da Avenida Mauá. Nas mãos, as manifestantes carregavam cruzes brancas, chamando a atenção e recebendo apoio das pessoas que circulavam pela feira.

Foto: Início da caminhada pelo Basta de Feminicídio.


As ações de apoio ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio englobaram, além do ato público, a série de vídeos “Todos por todas” com a chamada de  homens pelo fim da violência contra a mulher. Os vídeos foram postados, durante a semana, no instagram do FMM:@forummaringaensemulheres, no qual, também, poderão ser encontradas as fotos do Ato Público.

Ao final da caminhada, a presidente do FMM, Vera Nogueira, agradeceu a todas as pessoas que contribuíram para a realização das atividades e convida toda a comunidade a continuar atenta e fortalecer o combate ao feminicídio.

Novos eventos serão realizados durante o mês de março pelas entidades que compõem o Fórum Maringaense de Mulheres.

 

Foto: Hortensia Franco.

 (Tania Tait, 08/03/2025)

quinta-feira, 5 de março de 2026

O uso das cores na política

Em nossas vidas, as cores sempre possuíram um significado relevante, seja nas vestimentas, seja na identificação das emoções, alegrias ou tristezas. Além desse lado, as cores, também são utilizadas para identificar os movimentos sociais e políticos. Assim, tem-se as cores utilizadas pelo movimento negro, lgbtqia+, identificação de autismo, meio ambiente, mulheres, indígenas, partidos políticos,  dentre vários usos.

Aqui, vamos tratar sobre duas cores específicas: o vermelho e o lilás. A primeira, a cor vermelha, ligada aos partidos políticos e movimento sindical e, também,  presente em muitas bandeiras oficiais de países. A segunda, a cor lilás usada pelo movimento feminista e pelo movimento organizado de mulheres, em geral.

O simbolismo das duas cores se tornou tão forte que cada corrente ideológica busca apagar ou depreciar a cor do outro.

Vejamos o vermelho. Historicamente, associado a rupturas de governos monárquicos, como na França e nos EUA (cuja bandeira tem as cores vermelho, branco e azul), o vermelho passa, com o decorrer do tempo, a ser vinculado ao comunismo, ao socialismo e às lutas sindicais dos trabalhadores e trabalhadoras.

Em heráldica – a ciência que estuda os brasões – o vermelho simboliza resistência e coragem; o branco remete à pureza e à inocência; e o azul representa vigilância, perseverança e justiça. (https://www.todamateria.com.br/)

Além de terem representado, anteriormente, o vínculo entre o povo e a monarquia, na França, as mesmas cores passaram a representar o lema da Revolução Francesa: “liberdade, igualdade, fraternidade”, na derrubada da monarquia.

Uma outra interpretação indica que o azul representa o poder legislativo; o branco, o executivo; e o vermelho, o povo.

Enfim, as bandeiras dos EUA e da França continuam usando as mesmas cores, inclusive o vermelho. Simbolicamente, o vermelho representava o símbolo da igualdade e a luta contra as aristocracias inglesa e francesa, respectivamente.

Por fim, a cor vermelha foi adotada pelos partidos comunistas e socialistas, como símbolo de solidariedade, a união dos trabalhadores e a busca por um mundo melhor. E, na atualidade, a cor vermelha está presente, mundo afora, nas manifestações da classe trabalhadora e no movimento sindical, nas lutas por democracia, direitos políticos, dentre outros.

Com relação à cor lilás, após décadas ouvindo que o movimento feminista atrapalha a luta de classes, as feministas se desvincularam do vermelho, mesmo comungando das ideias dos partidos de esquerda. Dessa forma, várias feministas adotaram a cor lilás, como uma nova síntese entre as cores azul e rosa. 

Uma narrativa história coloca que o lilás foi utilizado pelas sufragistas inglesas, antes, em 1908, junto com outras duas cores, como símbolo de sua luta. Estas lutadoras pelo direito de voto escolheram o lilás, o verde e o branco. O lilás se inspirava na cor da nobreza inglesa, o branco simbolizava a pureza da luta feminina e o verde a esperança da vitória.

Na atualidade, o movimento feminista adota a cor lilás como símbolo de luta, resistência, contra o machismo, contra o patriarcado, por direitos iguais e pelo fim da violência contra a mulher. Algumas correntes ideológicas do movimento feminista, combinam o uso do  vermelho e lilás, pela associação da luta pelos direitos da classe trabalhadora e pela igualdade das mulheres. Quem não se lembra do constante ataque ao movimento feminista com a valorização da cor rosa para meninas, relacionado ao papel de recatada e do lar para as mulheres e da cor azul para meninos, notadamente divulgada por partidos de direita e de extrema-direta?

Na política em geral, essas duas cores são vistas de duas formas. A direita quer apaga-las e a esquerda e o movimento feminista continuam reforçando seu uso simbólico como luta pelos direitos.

No Brasil, essa simbologia aparece nas manifestações públicas, nos prédios públicos, nas roupas, nos folhetos, enfim, em todo material usado por cada corrente ideológica.  Partidos de extrema-direita tentaram até sequestrar a bandeira do Brasil, nas cores verde e amarela, mas a bandeira é de todo o povo brasileiro, então não tem mais colado esse sequestro.

Até agora, nenhum governo federal, seja de direita ou esquerda ou centro, após a abertura democrática, propôs mudar a bandeira do Brasil, mesmo o verde e amarelo tendo sido usado com banho de sangue no governo da ditadura militar ou incentivo ao ódio aos contrários, por governos recentes.

Nas cidades, o uso político das cores não é diferente. Especificamente em Maringá, no início dos anos 2000, vimos um governo democrático popular usar as cores da bandeira do município (vermelho, amarelo e branco) na pintura de escolas e outros prédios públicos. O governo seguinte, considerado como de direita ou centro, mudou todas as cores para o verde, depois outro prefeito mudou para azul. A pintura na Secretaria da Mulher de Maringá é um exemplo claro da mudança ideológica, com novas cores, à mercê de cada governante. Ela já foi pintada de lilás e roxo em governos anteriores, agora, está na cor rosa. Não é por acaso, é método de apagamento de uma cor, o lilás, que incomoda por ser vinculado ao movimento feminista.

Obviamente, muitos prefeitos usam, também, nos prédios públicos, as cores de seus partidos políticos, mesmo criticando o prefeito que usou as cores da bandeira do município por ter a cor vermelha.

Essa narrativa do uso das cores pode parecer bobagem, mas não é. Ao salientar ou apagar as cores, a mensagem chega até a população que passa a menosprezar uma cor em detrimento da outra e, perfeitamente, relacionar com determinadas ideologias.

Por fim, muitos esquecem que as cores tem significado e impactam nas decisões. Muitos esquecem que as cores carregam uma história, seja de qual ideologia for. Portanto, as cores são importantes sim!!!



                                           Fonte da iamgem: Internet

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Todos juntos por todas: O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio



No dia 04 de fevereiro, foi lançado o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, com a união dos Três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. A iniciativa partiu do Presidente Lula em face do aumento dos feminicídios no Brasil, onde foram assassinadas quatro mulheres por dia, no ano passado.

O Feminicídio, antes não qualificado e nem contabilizado nas estatísticas passa a fazer parte do cenário legal e de mobilização social no Brasil, a partir da lei 13.104, aprovada em 09 de março de 2015, a qual altera o Código Penal com a inclusão do crime de feminicídio, detalhando penas maiores quando a mulher está em situação de vulnerabilidade (meninas e idosas).

A partir desta alteração, o crime de feminicídio passa a ser qualificado como crime contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. Também, a lei considera como razões de condição do sexo feminino: a violência doméstica e familiar e o menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Entretanto, apenas a publicação da Lei do Feminicídio não inibiu esse crime bárbaro que acontece tanto dentro dos relacionamentos privados como na supressão do direito de ir e vir das mulheres. Homens que não aceitam o fim do relacionamento ou que querem se apropriar dos bens da mulher, estão entre os criminosos.

De acordo com o Planalto do Governo, em 2025, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Já o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, coordenado pelo Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em 2025.

Ao mesmo tempo que existe uma estrutura de combate à violência contra a mulher, protegendo-as, há um problema social grave que ainda persiste nos homens que ser consideram donos dos corpos e mentes das mulheres.

Sempre houve um silêncio na sociedade pautado no lema: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colar” ou dizeres preconceituosos culpabilizando a vítima da morte ou do ataque sofrido, com frases do tipo: “o que estava fazendo ali andando sozinha”, “que roupa estava usando”, “ela procurou”, dentre outras frases desqualificadoras para justificar o crime e o criminoso.

Assim, o senso comum finge esquecer que o estuprador estupra mulheres bebês com fraldas, idosas, filhas, irmãs, esposas, netas, sobrinhas, empregadas...não importa o local nem a roupa, nem a idade. E a sociedade, de modo geral, continua fingindo não ver quando uma mulher é agredida ou morta dentro do próprio relacionamento.

Campanhas recentes têm chamado a atenção dos homens para sua responsabilidade diante da violência contra a mulher, mas nem isso tem inibido os feminicídios.

Portanto, ao tomar a iniciativa de se comprometer com o combate ao feminicídio, o Presidente Lula desencadeia uma cobrança para toda a sociedade brasileira, ao integrar os três poderes e lançar em conjunto o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio.

O pacto tem como objetivos acelerar o cumprimento das medidas protetivas, fortalecer as redes de enfrentamento à violência em todo o território nacional, ampliar ações educativas e responsabilizar os agressores, combatendo a impunidade.

O acordo também prevê compromissos voltados à transformação da cultura institucional dos três Poderes, à promoção da igualdade de tratamento entre homens e mulheres, ao enfrentamento do machismo estrutural e à incorporação de respostas a novos desafios, como a violência digital contra mulheres.

Para garantir a efetividade das ações, o pacto institui uma estrutura formal de governança, com a criação do Comitê Interinstitucional de Gestão, coordenado pela Presidência da República. O colegiado reunirá representantes dos três Poderes, com participação permanente de Ministérios Públicos e Defensorias Públicas, assegurando acompanhamento contínuo, articulação federativa e transparência.
Pelo Executivo, integram o comitê Casa Civil, Secretaria de Relações Institucionais e os ministérios das Mulheres e da Justiça e Segurança Pública.

Desta forma, como medidas concretas, o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio estabelece:

·         Medidas protetivas mais rápidas e que funcionem de verdade
Menos tempo entre a denúncia e a proteção efetiva da mulher. A ideia é que decisões judiciais, polícia, assistência social e rede de acolhimento passem a agir de forma coordenada, sem “empurra-empurra”.

·         Estado inteiro olhando para o mesmo caso
Executivo, Legislativo e Judiciário e órgãos de controle compartilham informações e acompanham os casos de forma integrada, do pedido de ajuda até o desfecho, reduzindo falhas que hoje colocam mulheres em risco.

·         Mais prevenção antes da violência virar morte
Campanhas permanentes, educação para direitos, capacitação de agentes públicos e ações para mudar a cultura de violência — inclusive envolvendo homens como parte da solução.

·         Agressores responsabilizados com mais rapidez
Processos mais céleres, menos impunidade e respostas mais firmes a quem descumpre medidas protetivas ou comete violência.

·         Atenção especial a quem corre mais risco
Foco em mulheres negras, indígenas, quilombolas, periféricas, do campo, com deficiência, jovens, idosas e moradoras de áreas remotas ou em maior vulnerabilidade.

·         Resposta a novas formas de violência
Enfrentamento da violência digital, como perseguição, ameaças e exposição online, que muitas vezes antecedem agressões físicas.

·         Cobrança pública de resultados
Relatórios periódicos, metas e prestação de contas: o pacto não fica só no anúncio — ele cria obrigação de mostrar o que está funcionando e o que precisa mudar.

Espera-se que a união dos três poderes e as medidas anunciadas no Pacto Brasil contra o Feminicídio contribuam para eliminar a triste escalada dos feminicídios no país.

Que o exemplo do Presidente Lula de se juntar na defesa das mulheres em situação de violência seja seguido pelos brasileiros, com o fortalecimento, na prática, do lema “ TODOS JUNTOS POR TODAS”.

 

Fonte para dos dados sobre o Pacto Brasil contra o Feminicídio: https://www.gov.br/gestao/pt-br/assuntos/noticias/2026/fevereiro/tres-poderes-da-republica-se-unem-em-pacto-historico-para-enfrentamento-ao-feminicidio-no-brasil


                                                                                                                    Tania Tait (10/02/2026)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Encontro Nacional de Mulheres do PT fortalece a organização das petistas para 2026

Foto: Encerramento do 14. Encontro Nacional de Mulheres do PT, 01/02/2026

O 14. Encontro Nacional de Mulheres do PT aconteceu de 30 de janeiro  de 2026 a 01 de fevereiro de 2026 em Luziânia – Goiás e contou com mais de 700 representantes dos Estados Brasileiros. A delegação do Paraná contou com 18 delegadas representando todas as regiões do Estado. Dentre elas, a vereadora Miss Preta, Vice-presidente do PT Paraná, a Secretária Estadual de Mulheres do PT, Marilda Ribeiro e a Secretária Municipal de Mulheres do PT de Maringá, Márcia Bianchi.   

O slogan do 14. Encontro Nacional de Mulheres do PT ressaltou três ações relevantes pra todas: “Organizadas, resistimos; Unidas, transformamos o poder e vivas nos queremos”.  Ações que englobam a atuação das mulheres na política de modo geral, a atuação dentro da estrutura partidária, a participação nos espaços de poder,  no combate ao Feminicídio e à toda forma de violência contra a mulher.

 Assim, temas relevantes como a ocupação dos espaços de poder, ações pela paz e desarmamento, pela justiça climática, o cuidado com quem cuida, os direitos reprodutivos e sociais, o combate ao feminicídio e o combate à violência contra a mulher, formação política, estrutura partidária, comunicação, o fortalecimento do feminismo, entre outros foram tratados nos três dias do evento.

Uma das plenárias trouxe a pesquisa realizada em parceria entre o Sesc São Paulo e a Fundação Perseu Abramo“: Mulheres e gêneros nos espaços Público e Privado” e Eleições 2026: Sem mulheres, não há vitória” (https://fpabramo.org.br/pesquisas/pesquisa-noppe/mulheres-brasileiras-e-genero-nos-espacos-publico-e-privado-3a-edicao/) A pesquisa mostra a necessidade de enfrentar a violência de gênero e ampliar a participação das mulheres nos espaços de poder.

No encontro, também,  foram aprovadas propostas para aprimorar o acesso das mulheres nos espaços de decisão, as quais serão encaminhadas para o 8. Congresso do PT que será realizado de 23 a 26 de abril de 2026.  

Além das discussões sobre a participação das mulheres, as eleições 2026 e a reeleição do Presidente Lula, as representantes elegeram a Secretária Nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais para a gestão 2026-2030.  bem como o coletivo nacional composto por 18 representantes. O Paraná passa a integrar o coletivo nacional com representação da maringaense Tania Tait, pela regional sul.

Na avaliação geral, houve consenso que o 14. Encontro foi um sucesso ao apresentar propostas concretas da atuação feminina bem como a certeza de que unidas, as mulheres são mais fortes! A reeleição do Presidente Lula esteve presente nas discussões, salientando as políticas públicas e sociais, a defesa da democracia e o fortalecimento da soberania do Brasil.


 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Lembranças de uma adolescente maringaense



Como toda adolescente, tenho as lembranças dos passeios pela cidade, do Parque do Ingá, da pista de patinação, dos passeios na Av. Herval, da sorveteria Espucreme, dos cinemas, das andanças de bicicleta, do treino de natação no Clube Olímpico, entre tantas. Talvez pelo privilégio de morar na área central da cidade, eu tenha algumas lembranças distintas de quem morava nos bairros mais afastados.

Mas, além das lembranças juvenis, eu tenho outras, as quais eu não compreendia muito bem na época, mas que me incomodavam. Destaco algumas: a frase “Brasil, ame-o ou deixei-o”; o desvio do assunto de um professor em sala de aula, as notícias estranhas do Jornal Nacional, meu pai contar que sumiram pessoas em Maringá e a interpretação das músicas nas aulas de português.

Maringá está situada no norte do Paraná, conta, atualmente, com mais de 400 mil habitantes e fez 78 anos. Entretanto, na minha infância e adolescência, a cidade era considerada pequena, jovem e praticamente todo mundo se conhecia. Ao olhar para o passado, parece incrível pensar que aqui existiam pessoas que discordavam do governo da ditadura militar (de 1964 a 1985) e atuavam contra ele. Mas, elas existiram e muitas pesquisas narram essa parte da história da cidade, inclusive com relação as mulheres que atuaram neste campo, as quais narro no livro “as mulheres na luta política” (Editora CRV, 2020).

Voltemos às lembranças da adolescência. Nitidamente, me vem à mente, as fitinhas com a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o”, embalada pela música “Eu te amo meu Brasil”, composição de Dom, da dupla Dom & Ravel e lançada pela banda Os Incríveis, em  1970. A música foi criada como hino da Copa do Mundo, mas foi usada como propaganda pelo governo da ditadura militar.

A segunda lembrança, já no primeiro ano do ensino médio (na época, chamava científico), o professor pediu pra lermos a Constituição Federal Brasileira. Na leitura, encontrei a eleição pra governador e me chamou atenção. Na aula, perguntei pra ele por que os governadores não eram eleitos se estava na Constituição. Ele desconversou, ficou vermelho e não respondeu. Na época, eu não entendi que se ele comentasse, corria o risco de ser preso. O ano era 1976. Fui pesquisar por conta própria e encontrei que: “o governo  militar, instituído em 1964, proibiu o voto direto para presidente da República e representantes de outros cargos majoritários, como governador, prefeito e senador”.

Talvez percebendo meu interesse juvenil por política e como eu ficava brava assistindo o Jornal Nacional, chamando as notícias de mentirosas, meu pai contava que sumiram pessoas na região de Maringá, que eram contra o governo. Segundo ele, professores, jornalistas e sindicalistas simplesmente desapareciam e ninguém sabia deles. Na época, minha mãe me proibiu de assistir o jornal, pois segundo ela, eu ficava muito nervosa. Tenho a impressão que os dois combinavam o que fazer com a filha estudiosa e curiosa, “perguntadeira” demais.

As músicas sempre fizeram parte da minha vida, as festas da família sempre eram regadas à música, cantadas e ensinadas pela minha avó Marianna. Portanto, o interesse pela interpretação dos textos das músicas foi natural e me encantou ser apresentada ao Chico Buarque. Lembro a primeira vez que li: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Não era recado pra uma mulher, era pro governo da ditadura militar.

Então, foi assim, uma adolescente que usava óculos desde os cinco anos de idade, andava de bicicleta e nadava, gostava dos livros e das músicas, observou o mundo ao seu redor e, nas entrelinhas do cotidiano, entre as danças nas tardes de domingo nas casas de amigas, percebeu que alguma coisa não estava certa, pois havia um certo medo pairando no ar do mundo dos adultos.

Anos depois, com tristeza, ela conheceu a história e viu que sua impressão estava certa. O medo que pairava no ar fazia sentido.


 

 

 

 

 

 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Catarina, Bruna, Jujuba, Magó... quantas mais...até quando?

 A cada crime cometido contra mulheres, sinto um aperto imenso no peito. Estou, junto a muitas mulheres e alguns homens, na luta pelo fim da violência contra a mulher desde que comecei, na juventude, minha militância pelos direitos das mulheres.

Vimos a aprovação da Constituição Brasileira que nos garante o direito de ir e vir, exaltamos a criação das Delegacias da Mulher nos anos 1980, nos animamos com a Lei Maria da Penha, homologada em 2006 (primeiro governo do Presidente Lula), divulgamos o disque 180, valorizamos o rigor da Lei do Feminicídio de 2014 e tantas outras leis de combate à violência contra a mulher.

Nos entristecemos com um governo de 2018 a 2022 (do presidente inelegível e agora, presidiário) que cortou, 90%, do orçamento de políticas públicas para o combate à violência contra a mulher e exaltou a função submissa da mulher. Submissão essa que se mostrou hipócrita, pois as mulheres do seu partido e aliados se empoderaram pra candidaturas eleitorais e pelo orçamento do fundo partidário destinado às candidaturas femininas.

Pensamos e atuamos no combate à violência doméstica, dentro dos relacionamentos e na violência que as mulheres sofrem pelo simples fato de serem mulheres.

Quando nos deparamos com feminicídio como os cometidos contra mulheres a exemplo de Catarina, refletimos sobre o papel da sociedade e do poder público na garantia dos direitos de ir e vir das mulheres, que ao ter medo do simples ato de andar sozinhas nas ruas à noite, demonstra, de forma nítida, que esse direito não existe para as mulheres.

O que Catarina, Bruna, Jujuba, Magó e tantas outras que encontram monstros em seu caminho tinham em comum? São mulheres que fizeram valer seu direito à liberdade, de escolhas, de ir e vir, de exercer seu trabalho.

Não conheci pessoalmente nenhuma das quatro que cito no título. Acompanhei de perto a dor da mãe e do pai da Magó, em Maringá. Eu os conhecia por trabalharmos juntos na UEM (Universidade Estadual de Maringá) e por ter sido aluna de sapateado da mãe, Daisa. Nos aproximamos na dor de uma mãe com uma perda que não tem nome nem reparação e que transformou sua dor em luta para que outras famílias não passem por este sofrimento.

Não conheço os caminhos pelos quais as  quatro mulheres andaram no dia de suas mortes, com exceção do trajeto feito por Catarina, na Praia do Matadeiro, em Florianópolis. Talvez por conhecer o trajeto e ter caminhado por lá, no meu tempo de doutorado UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), com amigas e amigos e com minhas filhas, fiquei imaginando Catarina caminhando tranquilamente, como devia fazer sempre. É um local lindo de ver, por onde se chega andando em uma ponte de pedestres, por cima de um rio.

Sei, pelas informações via imprensa, que Magó caminhava na trilha para uma cachoeira, Jujuba dormia em uma rede na hospedagem que estava, Bruna resolveu ir a pé pra casa e Catarina ia para uma aula de natação. Ações cotidianas que qualquer uma de nós faz, sem imaginar que esse trajeto ou esse sono possa ser interrompido por ataques, estupros ou mortes.

É com muita tristeza que penso no trajeto interrompido  e na vida ceifada das mulheres, pelo fato de serem mulheres.

Diante de tudo isso, este 25 de novembro que é o dia internacional pelo fim da violência contra a mulher, precisa ser comentado, tratado, divulgado, mas que o combate à violência  aconteça todos os dias do ano todo, para que mulheres e meninas tenham o direito de ir e vir e viver num mundo sem violência.

Por Catarina, Bruna, Jujuba, Magó e tantas outras!!!




 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Clara Charf, presente!

 A notícia da morte de Clara Charf, hoje, aos 100 anos de idade, me trouxe à memória aquele dia em São Paulo, quando a conheci e troquei algumas palavras com ela.

A década era 1980, não sei precisar o ano. O evento era uma reunião nacional das mulheres do PT, com representantes de vários Estados, onde eu era uma das representantes do Paraná.

Na chegada, havia uma escada e todas foram entrando no local. Ao meu lado estava uma senhora que parecia ter um pouco mais de idade que as outras mulheres presentes. Observei que ela usava acessórios na cor lilás. Percebi, também, que andava devagar e ofereci meu braço pra ela subir as escadas. Ela aceitou e disse:

- você deve ser acostumada com pessoas de mais idade

- sim, tenho minhas avós. Respondi a ela.

- dá pra perceber. Você foi a única que me esperou e acompanhou, as demais subiram as escadas sem nem reparar quem vinha atrás.

Até então eu não havia me dado conta de quem ela era. Na apresentação de cada participante da reunião, fiquei de boca aberta, claro. Eu havia dado o braço pra acompanhar Clara Charf, a esposa de Carlos Marighela, dois ícones na luta contra a ditadura militar. Ele assassinado numa emboscada, ela exilada.

Na reunião, tarefas foram distribuídas entre nós. Na reunião seguinte, meses depois, a Clara havia sido a única, da sua equipe, que cumpriu a tarefa que lhe fora designada. A impressão que Clara me deixou nessas duas oportunidades foi de uma pessoa que com segurança e firmeza, cumpre suas atribuições de forma responsável e organizada. Provavelmente, características herdadas de sua militância no combate ao governo da ditadura militar.

Seu retorno ao Brasil, pós-exílio, não foi fácil, segundo ela, principalmente, pela dificuldade em obter emprego. Foi uma das fundadoras do PT e apoiadora do MST, foi candidata, recebeu homenagem no Governo da Presidente Dilma por sua trajetória na defesa dos direitos das mulheres e atuou sempre na defesa da democracia.

Certamente, Clara Charf entra para a história como um exemplo de resistência e luta pela democracia.

Clara, presente!!!

Foto: imagens da Internet


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Os movimentos sociais e a Caravana Federativa do Governo Lula

Nos dias 30 e 31 de outubro, aconteceu a Caravana Federativa do Governo Federal no Paraná. Realizada em Foz do Iguaçu, tendo a Itaipu como anfitriã, a Caravana Federativa tem como objetivo aproximar o Governo Federal das prefeituras e da população, garantindo que os programas cheguem onde mais são necessários. No evento ocorreram debates, oficinas e estandes com a presença dos ministérios e órgãos federais para atender prefeitos, vereadores e lideranças do movimento social, facilitando o acesso a programas, convênios e políticas públicas.

A abertura do evento contou com a presença de ministros/as, deputados/as federais e estaduais, prefeitos/as, vereadores/as e representante do movimento social. A ministra Gleisi Hofmann falou da importância da aproximação do Governos Federal para que os municípios tenham acesso facilitado aos programas e salientou o compromisso do Governo Lula com o povo. Para o diretor brasileiro da Itaipu Binacional, Dr. Enio Verri, a iniciativa do Governo Federal cumpre uma missão relevante ao trazer os programas e ações para perto da população, tanto do setor público municipal com das entidades da sociedade civil. Representando a Alep (Assembleia Legislativa do Paraná), o deputado Arilson Chioratto ressaltou a parceria do Governo Federal com os municípios paranaenses. A representante do Ministério das Mulheres, Eutália Barbosa reforçou o pacto e ações pelo combate à violência contra a mulher enquanto o Ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, destacou o ressarcimento aos aposentados por parte do Governo Federal relativo aos descontos não autorizados. Consenso entre as autoridades e representantes da sociedade civil, exaltou-se a relevância da Caravana como forma de aproximar o Governos Federal e a população. 

Via o Fórum de Participação Social (FPS), do qual a entidade que atuo, Associação Maria do Ingá Direitos das Mulheres faz parte, tivemos a oportunidade de participar da plenária do FPS bem como das oficinas específicas na área de direitos das mulheres.

Entre autoridades de terno e gravata, movimentos indígena e negro com suas vestimentas, mulheres com suas bandeiras de luta, dentre tantos, a Caravana mostra um pouco a cara do Estado do Paraná, que ainda mantem altos índices de feminicídio, racismo e preconceito, os quais devem ser combatidos com a união de movimento social e setor público.

Como observadora, não pude deixar de registrar que na mesa de abertura, estavam presentes 30 homens e apenas 5 mulheres, nenhum negro, numa demonstração clara que ainda há muito o que fazer para a igualdade no Estado do Paraná. Ainda mais para nós mulheres,  que somos 52% da população, e estamos muito aquém da ocupação nos espaços de poder, como bem tratado na oficina do Ministério das Mulheres sobre Estratégias para ocupação dos espaços de poder.

No mais, a iniciativa do Governo Federal e organização do evento nos pareceram excelentes, sendo os contatos e as atividades promissoras com vistas a que as ações do Governo Federal cheguem pertinho de nós, nos nossos municípios.


Foto: Abertura da Caravana Federativa no Paraná. 30/10/2025. A autora.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres na região Sul do Brasil

A 6ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) teve início em março de 2025 no Saara Ocidental, com encerramento em outubro de 2025, no Nepal. Com o lema “Seguiremos em marcha contra as guerras e o capital, por soberanias populares e bem viver”, a MMM realizou eventos em mais de 60 países. No Brasil, ocorreram eventos em várias cidades durante o período.

A Ação Internacional da MMM acontece a cada 5 anos e mostra a importância da união e da solidariedade entre as mulheres. Ao reunir mulheres diversas (do campo, da cidade, das águas, das florestas, negras, indígenas, quilombolas, brancas, jovens, idosas, lésbicas, bissexuais, trans, trabalhadoras, estudantes, sindicalistas, da agroecologia e da economia solidária), a MMM está presente em todos os segmentos na luta para mudar o mundo e a vida das mulheres para o bem viver, que implica na defesa dos bens comuns e de nossos corpos.

Na Região Sul do Brasil, nos dias 18 e 19 de outubro, em Florianópolis e Palhoça (Santa Catarina),  realizou-se o encerramento da 6ª. Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres. Representantes dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul participaram do evento, o qual contou com a realização de caminhada, roda de conversa e debates.

No dia 18, pela manhã, as marchantes, como são chamadas, realizaram caminhada pelo centro de Florianópolis com palavras de ordem pelo fim das guerras, combate à violência contra a mulher, descriminalização do aborto, justiça climática, dentre outras.

No período da tarde, na cidade de Palhoça, houve roda de conversa na Ocupação Marighela, ressaltando o direito à moradia e uma visita à Associação de Reciclagem de Lixo, com destaque para a valorização da necessidade de reciclar e cuidar do meio ambiente.

No dia 19, as reuniões aconteceram no Aldeia Pira Rupa, com debates e propostas de ação na região sul para os 4 eixos de atuação da MMM: Defesa dos bens comuns, Paz e desmilitarização, Economia feminista e solidária, Autonomia sobre nossos corpos e sexualidade. Em cada eixo foram apresentadas propostas, as quais são encaminhadas para os territórios e comporão a realização das atividades da MMM para os próximos anos. No Brasil, especificamente, destacam-se ações pelos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher, que se inicia no dia 20 de novembro (Dia da Consciência Negra) e vai até 10 de dezembro (Dia dos Direitos Humanos), passando pelo 25 de novembro (Dia Internacional de combate à violência contra a mulher) e 01 de dezembro (Dia Mundial de combate à AIDS)

Mais de 200 mulheres participaram da 6ª Ação da região Sul e confirmaram a palavra de ordem “ Seguiremos em marcha, até que todas sejamos livres!”

Fotos nos álbuns no Facebook (Tania Tait): 6a. Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres

(Tania Tait, 20/10/2025)



Representantes de Maringá: Marcia França, Patricia Lessa, Vera Nogueira e Tania Tait



quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Festival Medieval, Voucher para uniforme escolar, Aumento de 30% de IPTU... a quem serve a gestão municipal de Maringá?

Em seus 78 anos de idade, Maringá cresceu vertiginosamente se tornando polo de uma região com comércio, setor agrário e prestação de serviços pungentes. Paulatinamente, a vida na cidade encareceu para seus moradores trabalhadores, os quais se deslocam para morar nas cidades vizinhas, mesmo trabalhando em Maringá.

Dominada por uma elite empresarial com forte vinculo com família de políticos, a cidade parece gostar da imagem de “cidade rica” e, muitas vezes, esconde sua própria história forjada pelo trabalho de pessoas de vários locais que pra cá se dirigiram em busca de uma vida melhor.

Um exemplo, tem sido a construção de prédios na Vila Operária, a qual na propaganda das construtoras é tratada como “Zona 03” como se o nome “Operária” não pegasse bem para os edifícios de alto padrão. Vale lembrar que na organização dos bairros no começo da cidade, a Vila Operária (Zona 03) como o nome diz era destinada aos trabalhadores braçais enquanto a Zona 02 (até hoje não entendi porque ela não tem um nome) era para profissionais liberais e Centro (Zona 01) usada para o comércio, conforme narram vários livros e pesquisas que contam a trajetória da cidade e suas gestões municipais.

Mas, ao voltar para a atualidade, vê-se que esta nova gestão que completou 9 meses, dominada, novamente, pelo grupo da família de políticos, possui como marca o controle  da cidade, só que desta vez, tem trazido propostas inusitadas e polêmicas, pra não dizer outros adjetivos.  Destacam-se: um Festival Medieval, o voucher para uniforme escolar e o aumento de 30% do IPTU.

O Festival Medieval chamou muita atenção. Representantes da Prefeitura foram a Portugal (com dinheiro público) sob alegação de intercâmbio comercial com o país. Rapidamente, a turma trouxe o projeto de um Festival Medieval, fizeram o lançamento do evento com trajes típicos e imitaram uma festa da Idade Média. Onde e como arrumaram os trajes, tão rapidamente, é uma incógnita. Mas, isso é detalhe. O que importa é que um Festival Medieval não tem nada a ver com um local que foi transformado em cidade em 1947, portanto, sem tradição alguma no período da Idade Média. Fazer intercâmbio comercial é ótimo para todos os lados, no entanto, a forma como tudo foi conduzido chegou a beirar o ridículo.

O Voucher, por sua vez, mexeu com a estrutura escolar de forma abrupta, com a alegação de atender os comerciantes da região, ao invés de abrir processo licitatório. Dessa forma, a Prefeitura se livra do problema de aquisição dos uniformes e leva um trabalho a mais para os pais que terão de colocar em sua rotina diária já tão espremida, tempo para pesquisar e comprar uniforme. Certamente, com o tempo, o recurso gasto pela prefeitura será superfaturado ou mal dimensionado diante do mercado e não há garantia da qualidade apregoada.

E na última proposta, tem-se o aumento absurdo do IPTU com alta de 30% para 2026. Prefeito e vereadores aliados (as) aprovaram o projeto mesmo diante dos protestos dos maringaenses, em uma Câmara Municipal com presença massiva dos cargos comissionadas e tanto a Polícia Militar como a Guarda Municipal convocadas para intimidar a população. Vários cálculos mostraram que o aumento é abusivo, mas foi aprovado pelos vereadores, por 15 a 7.

Tudo isso leva à reflexão: para quem a gestão municipal trabalha e quais os interesses por trás das propostas apresentadas e aprovadas pelos vereadores? Talvez nunca se saiba, entretanto, essas propostas não foram apresentadas na campanha eleitoral, o que significa que eleitores e eleitoras foram enganados ao eleger candidatos (Prefeitos e Vereadores) que apresentam projetos e votam contra os interesses da população.


Foto: Sessão da Câmara Municipal de Maringá, de 02/10/2025. Acervo da autora.