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terça-feira, 31 de março de 2026

O valor dos números e a arrogância numérica

Duas frases me chamaram a atenção recentemente. Não vou dizer o nome das pessoas e nem o contexto. O que interessa é o conteúdo e o valor dado por elas.

- façam mais de 100 mil votos como eu fiz e depois conversamos;

- quando a pessoa tiver mais de 50 mil seguidores como eu, darei atenção a ela.

Desde crianças, aprendemos sobre os números, quando começamos a usar os dedinhos pra contar 1, 2 3... ou até 10 pra brincar de esconde-esconde. Depois, para algumas crianças, os números se tornam um tormento ligados ao ensino da matemática. Quem não se lembra da famosa tabuada?

 E quando as crianças crescem são marcadas com números. Aliás, desde alguns anos, as crianças tem CPF desde que nascem. Aí vem o número da classificação no vestibular, se fizer, o salário, as notas e as contas pra pagar. Enfim, o número não é apenas o da casa que moramos ou do RG, ele está em tudo e pauta nossa existência.

Na sua definição básica, o “número é uma entidade matemática fundamental e abstrata, utilizado para caracterizar a contagem, a ordenação, medição ou identificação .  Os números possuem uma relação com elementos quaisquer, sejam reais ou não.” https://www.todamateria.com.br/numeros/

Entretanto, pela história, os números passaram a representar a riqueza ou a pobreza dos povos e das pessoas, o poder de alguns sobre outros e a classificar quem tem mais ou tem menos poder. Da contagem das pedras a contagem do lançamento de mísseis, tivemos muitas versões para a representação dos números.

E chegamos ao processo eleitoral e ao uso das redes digitais, os quais tem, em comum, a disseminação de informações, verdadeiras ou duvidosas, que alcança um número imenso de pessoas.

Dentro deste contexto, surge um novo valor dado ao número: o número de quantas pessoas são alcançadas ou alcançáveis, como se isso fosse sinônimo de uma espécie de riqueza ou capital.

E assim, tem-se o que pode ser chamado de “arrogância numérica” que faz com que tanto um político eleito como um influenciador digital se sintam empoderados e mais importantes do que as demais pessoas. Não é mais a arrogância do saldo bancário (que as vezes vem junto com a exposição política ou midiática), agora é a exposição que conta.

Claro que as pessoas que expõem suas ideias, tanto na vida política como no mundo virtual, ou em ambos, querem ser ouvidas, lidas, curtidas e divulgadas, afinal são espaços importantes para apresentar seus pensamentos e propostas.

O problema é quando essa ação e esse alcance se tornam moeda de valor em detrimento de outros valores. Ouvir quem não fez votos ou quem não usa as redes digitais, mas possui experiência e conhece bem sua própria área de trabalho ou atuação pode contribuir muito para novas soluções, novas ideias e novos movimentos.

Afinal, as pessoas podem não ter tantos votos ou nem seguidores, mas elas têm acesso à uma urna eletrônica, numa eleição democrática, na qual podem digitar os números de seus candidatos ou candidatas e, aí, está o símbolo do seu poder ao digitar o número no qual acredita.

Esse poder, numa democracia, tem mais valor numérico do que muitas pessoas possam imaginar, pois a pessoa vai definir os rumos que deseja para sua cidade, seu estado ou seu país.

Então, vamos dar atenção, também, para aquelas pessoas que não fizeram e nem farão 100 mil votos, não têm e nem terão 50 mil seguidores, pois esses números podem ser passageiros e não terem significado,  se não servirem para melhorar a vida das pessoas.


Imagem extraída da Internet


domingo, 22 de março de 2026

A faca e o boné

Em conversa com minha prima-irmã Rose, relembramos fatos que vivemos com nossos pais, Angelo e Anselmo Sidnei Tait. Irmãos grudados e amorosos que se casaram com duas irmãs, Laura (minha mãe) e Maria Calvi (minha madrinha de crisma) e geraram uma família única, a Calvi Tait. Crescemos juntos e, muitas vezes, pelos sobrenomes que herdamos, as pessoas pesavam que fossemos irmãos. O cuidado deles e delas para conosco sempre foi presente, desde a infância até a vida adulta.

Certamente, meu pai e tio Sid não combinaram, mas foram atores do mesmo cuidado quando eu cursava doutorado em Florianópolis. Talvez por ser a primeira da geração a “voar” pra outras paragens, talvez por me verem como menina, talvez por conhecerem as estradas por terem sido caminhoneiros ao desbravar as terras do norte do Paraná, o fato é que com 36 anos de idade e dirigindo sozinha nas estradas, os dois manifestavam suas preocupações e davam muitos conselhos para a motorista.

Aqui entram a faca e o boné.

A faca de churrasco foi um presente que dei para o meu pai, churrasqueiro da família e do melhor churrasco. Diferente da faca tradicional que ele usava, a que o presentei era uma faca estilizada, com cabo de couro etc. Quando eu comecei a viajar para o doutorado, ele chega pra mim com a faca:

- leva com você, coloca no porta luvas do carro. Vai que você precisa.

- pra que pai, nem sei usar uma faca

- ué, pode precisar pra cortar uma laranja, uma corda...

- tá bom, pai.

 

Entendi o que ele queria dizer, era, no fundo, pra me proteger. Assim, a faca de churrasco com sua bainha de couro morou por anos dentro do porta-luvas de cada carro que tive. Nunca foi usada, mas estava lá e de certa forma, isso o tranquilizava.

O boné foi indicação do tio Sid, num almoço de família.

- menina, perigoso dirigir na estrada sozinha até Florianópolis.

- fica tranquilo tio. Penso assim, vou de Maringá a Apucarana, Apucarana Ponta Grossa, Ponta Grossa Curitiba, Curitiba Joinville,  Joinville Camboriu e  Camboriu Florianópolis. Pronto Cheguei,

- tá bom, mas, pelo menos, põe um boné nessa cabeça pra esconder o cabelo e pensarem que é um homem.

 

Dei risada e falei pra ele  ficar tranquilo que eu era cuidadosa na estrada e não dava bobeira, só parava pra abastecer. Sempre andei com os cabelos presos devido ao  calor  e a cabeleira, mas não usei o boné, ia esquentar mais ainda. Quando tinha almoço de família e ele sabia que eu ia viajar, sei que ficava preocupado. Na chegada, eu telefonava pra ele, ainda não havia celular.

- Cheguei, tio Sid.

- Graças a Deus

Quando eu contava  esses episódios, algumas pessoas diziam que isso era machismo, pois eles não fariam a mesma coisa se eu fosse um homem.

Certamente, pela geração deles e pela sociedade que viviam, eram machistas como muitos e muitas de nós, que nos descontruímos todos os dias na busca de uma sociedade, na qual mulheres e homens sejam tratados da mesma forma em direitos e obrigações.

Mas, pra mim, que recebia todo esse carinho, eu via como muito amor por parte deles, tanto que os chamava de meus dois pais. Privilégio ter um pai e um segundo pai pra cuidar. Sempre ouvi os conselhos dos dois, que foram muitos. Alguns eu sorria, outros eu seguia.

No final das contas, não tive problemas na estrada e comemoramos a defesa do meu doutorado com um almoço em que eles estavam felizes pela conquista da “menina” e por ela parar de “pegar a estrada”.

Mal sabíamos que quatro anos depois, num intervalo de apenas seis meses, os dois iriam embora antes do combinado, acometidos por doenças.

Nossos amores.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Dia Internacional da Mulher: Maringá reúne centenas de pessoas em Ato contra o feminicídio

                                                                                          

A gravidade da situação com os dados alarmantes de feminicídios levou a protestos pelo fim da violência contra a mulher por todo o Brasil, no dia 08 de março, tanto nas capitais como nas cidades polos de regiões.

Em Maringá, centenas de pessoas se reuniram na manhã de domingo, no Ato público “Todos por todas” convocado pelo Fórum Maringaense de Mulheres em apoio ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio. A concentração para o ato público foi realizada na Praça Rocha Pombo.

No convite divulgado pelo Fórum Maringaense de Mulheres foram reproduzidos os dados de feminicídios e agressões contra as mulheres: “. De acordo com o Planalto do Governo, em 2025, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia, totalizando 15.453 julgamentos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram concedidas 621.202 medidas protetivas, o equivalente a 70 por hora, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Já o Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher, coordenado pelo Ministério das Mulheres, registrou, em média, 425 denúncias por dia em 2025.”

Além das manifestações das entidades do movimento de mulheres, representantes do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Maringá e grupos de mulheres de partidos políticos presentes no ato público em Maringá, três apresentações foram realizadas: o jogral de combate à violência contra a mulher, a roda de capoeira do grupo Salve as Marias e a batucada feminista da Marcha Mundial das Mulheres.

Sob a palavra de ordem Basta de Feminicídio, gritos de “Pela vida das mulheres e das meninas”, dentre outros, o público presente realizou caminhada pela feira livre da Avenida Mauá. Nas mãos, as manifestantes carregavam cruzes brancas, chamando a atenção e recebendo apoio das pessoas que circulavam pela feira.

Foto: Início da caminhada pelo Basta de Feminicídio.


As ações de apoio ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio englobaram, além do ato público, a série de vídeos “Todos por todas” com a chamada de  homens pelo fim da violência contra a mulher. Os vídeos foram postados, durante a semana, no instagram do FMM:@forummaringaensemulheres, no qual, também, poderão ser encontradas as fotos do Ato Público.

Ao final da caminhada, a presidente do FMM, Vera Nogueira, agradeceu a todas as pessoas que contribuíram para a realização das atividades e convida toda a comunidade a continuar atenta e fortalecer o combate ao feminicídio.

Novos eventos serão realizados durante o mês de março pelas entidades que compõem o Fórum Maringaense de Mulheres.

 

Foto: Hortensia Franco.

 (Tania Tait, 08/03/2025)

quinta-feira, 5 de março de 2026

O uso das cores na política

Em nossas vidas, as cores sempre possuíram um significado relevante, seja nas vestimentas, seja na identificação das emoções, alegrias ou tristezas. Além desse lado, as cores, também são utilizadas para identificar os movimentos sociais e políticos. Assim, tem-se as cores utilizadas pelo movimento negro, lgbtqia+, identificação de autismo, meio ambiente, mulheres, indígenas, partidos políticos,  dentre vários usos.

Aqui, vamos tratar sobre duas cores específicas: o vermelho e o lilás. A primeira, a cor vermelha, ligada aos partidos políticos e movimento sindical e, também,  presente em muitas bandeiras oficiais de países. A segunda, a cor lilás usada pelo movimento feminista e pelo movimento organizado de mulheres, em geral.

O simbolismo das duas cores se tornou tão forte que cada corrente ideológica busca apagar ou depreciar a cor do outro.

Vejamos o vermelho. Historicamente, associado a rupturas de governos monárquicos, como na França e nos EUA (cuja bandeira tem as cores vermelho, branco e azul), o vermelho passa, com o decorrer do tempo, a ser vinculado ao comunismo, ao socialismo e às lutas sindicais dos trabalhadores e trabalhadoras.

Em heráldica – a ciência que estuda os brasões – o vermelho simboliza resistência e coragem; o branco remete à pureza e à inocência; e o azul representa vigilância, perseverança e justiça. (https://www.todamateria.com.br/)

Além de terem representado, anteriormente, o vínculo entre o povo e a monarquia, na França, as mesmas cores passaram a representar o lema da Revolução Francesa: “liberdade, igualdade, fraternidade”, na derrubada da monarquia.

Uma outra interpretação indica que o azul representa o poder legislativo; o branco, o executivo; e o vermelho, o povo.

Enfim, as bandeiras dos EUA e da França continuam usando as mesmas cores, inclusive o vermelho. Simbolicamente, o vermelho representava o símbolo da igualdade e a luta contra as aristocracias inglesa e francesa, respectivamente.

Por fim, a cor vermelha foi adotada pelos partidos comunistas e socialistas, como símbolo de solidariedade, a união dos trabalhadores e a busca por um mundo melhor. E, na atualidade, a cor vermelha está presente, mundo afora, nas manifestações da classe trabalhadora e no movimento sindical, nas lutas por democracia, direitos políticos, dentre outros.

Com relação à cor lilás, após décadas ouvindo que o movimento feminista atrapalha a luta de classes, as feministas se desvincularam do vermelho, mesmo comungando das ideias dos partidos de esquerda. Dessa forma, várias feministas adotaram a cor lilás, como uma nova síntese entre as cores azul e rosa. 

Uma narrativa história coloca que o lilás foi utilizado pelas sufragistas inglesas, antes, em 1908, junto com outras duas cores, como símbolo de sua luta. Estas lutadoras pelo direito de voto escolheram o lilás, o verde e o branco. O lilás se inspirava na cor da nobreza inglesa, o branco simbolizava a pureza da luta feminina e o verde a esperança da vitória.

Na atualidade, o movimento feminista adota a cor lilás como símbolo de luta, resistência, contra o machismo, contra o patriarcado, por direitos iguais e pelo fim da violência contra a mulher. Algumas correntes ideológicas do movimento feminista, combinam o uso do  vermelho e lilás, pela associação da luta pelos direitos da classe trabalhadora e pela igualdade das mulheres. Quem não se lembra do constante ataque ao movimento feminista com a valorização da cor rosa para meninas, relacionado ao papel de recatada e do lar para as mulheres e da cor azul para meninos, notadamente divulgada por partidos de direita e de extrema-direta?

Na política em geral, essas duas cores são vistas de duas formas. A direita quer apaga-las e a esquerda e o movimento feminista continuam reforçando seu uso simbólico como luta pelos direitos.

No Brasil, essa simbologia aparece nas manifestações públicas, nos prédios públicos, nas roupas, nos folhetos, enfim, em todo material usado por cada corrente ideológica.  Partidos de extrema-direita tentaram até sequestrar a bandeira do Brasil, nas cores verde e amarela, mas a bandeira é de todo o povo brasileiro, então não tem mais colado esse sequestro.

Até agora, nenhum governo federal, seja de direita ou esquerda ou centro, após a abertura democrática, propôs mudar a bandeira do Brasil, mesmo o verde e amarelo tendo sido usado com banho de sangue no governo da ditadura militar ou incentivo ao ódio aos contrários, por governos recentes.

Nas cidades, o uso político das cores não é diferente. Especificamente em Maringá, no início dos anos 2000, vimos um governo democrático popular usar as cores da bandeira do município (vermelho, amarelo e branco) na pintura de escolas e outros prédios públicos. O governo seguinte, considerado como de direita ou centro, mudou todas as cores para o verde, depois outro prefeito mudou para azul. A pintura na Secretaria da Mulher de Maringá é um exemplo claro da mudança ideológica, com novas cores, à mercê de cada governante. Ela já foi pintada de lilás e roxo em governos anteriores, agora, está na cor rosa. Não é por acaso, é método de apagamento de uma cor, o lilás, que incomoda por ser vinculado ao movimento feminista.

Obviamente, muitos prefeitos usam, também, nos prédios públicos, as cores de seus partidos políticos, mesmo criticando o prefeito que usou as cores da bandeira do município por ter a cor vermelha.

Essa narrativa do uso das cores pode parecer bobagem, mas não é. Ao salientar ou apagar as cores, a mensagem chega até a população que passa a menosprezar uma cor em detrimento da outra e, perfeitamente, relacionar com determinadas ideologias.

Por fim, muitos esquecem que as cores tem significado e impactam nas decisões. Muitos esquecem que as cores carregam uma história, seja de qual ideologia for. Portanto, as cores são importantes sim!!!



                                           Fonte da iamgem: Internet