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domingo, 22 de março de 2026

A faca e o boné

Em conversa com minha prima-irmã Rose, relembramos fatos que vivemos com nossos pais, Angelo e Anselmo Sidnei Tait. Irmãos grudados e amorosos que se casaram com duas irmãs, Laura (minha mãe) e Maria Calvi (minha madrinha de crisma) e geraram uma família única, a Calvi Tait. Crescemos juntos e, muitas vezes, pelos sobrenomes que herdamos, as pessoas pesavam que fossemos irmãos. O cuidado deles e delas para conosco sempre foi presente, desde a infância até a vida adulta.

Certamente, meu pai e tio Sid não combinaram, mas foram atores do mesmo cuidado quando eu cursava doutorado em Florianópolis. Talvez por ser a primeira da geração a “voar” pra outras paragens, talvez por me verem como menina, talvez por conhecerem as estradas por terem sido caminhoneiros ao desbravar as terras do norte do Paraná, o fato é que com 36 anos de idade e dirigindo sozinha nas estradas, os dois manifestavam suas preocupações e davam muitos conselhos para a motorista.

Aqui entram a faca e o boné.

A faca de churrasco foi um presente que dei para o meu pai, churrasqueiro da família e do melhor churrasco. Diferente da faca tradicional que ele usava, a que o presentei era uma faca estilizada, com cabo de couro etc. Quando eu comecei a viajar para o doutorado, ele chega pra mim com a faca:

- leva com você, coloca no porta luvas do carro. Vai que você precisa.

- pra que pai, nem sei usar uma faca

- ué, pode precisar pra cortar uma laranja, uma corda...

- tá bom, pai.

 

Entendi o que ele queria dizer, era, no fundo, pra me proteger. Assim, a faca de churrasco com sua bainha de couro morou por anos dentro do porta-luvas de cada carro que tive. Nunca foi usada, mas estava lá e de certa forma, isso o tranquilizava.

O boné foi indicação do tio Sid, num almoço de família.

- menina, perigoso dirigir na estrada sozinha até Florianópolis.

- fica tranquilo tio. Penso assim, vou de Maringá a Apucarana, Apucarana Ponta Grossa, Ponta Grossa Curitiba, Curitiba Joinville,  Joinville Camboriu e  Camboriu Florianópolis. Pronto Cheguei,

- tá bom, mas, pelo menos, põe um boné nessa cabeça pra esconder o cabelo e pensarem que é um homem.

 

Dei risada e falei pra ele  ficar tranquilo que eu era cuidadosa na estrada e não dava bobeira, só parava pra abastecer. Sempre andei com os cabelos presos devido ao  calor  e a cabeleira, mas não usei o boné, ia esquentar mais ainda. Quando tinha almoço de família e ele sabia que eu ia viajar, sei que ficava preocupado. Na chegada, eu telefonava pra ele, ainda não havia celular.

- Cheguei, tio Sid.

- Graças a Deus

Quando eu contava  esses episódios, algumas pessoas diziam que isso era machismo, pois eles não fariam a mesma coisa se eu fosse um homem.

Certamente, pela geração deles e pela sociedade que viviam, eram machistas como muitos e muitas de nós, que nos descontruímos todos os dias na busca de uma sociedade, na qual mulheres e homens sejam tratados da mesma forma em direitos e obrigações.

Mas, pra mim, que recebia todo esse carinho, eu via como muito amor por parte deles, tanto que os chamava de meus dois pais. Privilégio ter um pai e um segundo pai pra cuidar. Sempre ouvi os conselhos dos dois, que foram muitos. Alguns eu sorria, outros eu seguia.

No final das contas, não tive problemas na estrada e comemoramos a defesa do meu doutorado com um almoço em que eles estavam felizes pela conquista da “menina” e por ela parar de “pegar a estrada”.

Mal sabíamos que quatro anos depois, num intervalo de apenas seis meses, os dois iriam embora antes do combinado, acometidos por doenças.

Nossos amores.

 

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