Escrevi o texto A Canafístula e o Cedro em 2007, quando a prefeitura de Maringá, na primeira gestão Silvio Barros, derrubou a canafístula centenária, mesmo diante da reação popular, inclusive com jornalista se agarrando a árvore.
No texto, publicado no blog Factorama, eu descrevia a amizade entre as duas árvores, a preocupação da Canafístula com o Cedro que ficou mantido no lugar com desvio da avenida (Gestão José Cláudio) e depois, a preocupação do Cedro com a Canafístula.
Agora, em 2026, quase 20 anos depois, na terceira gestão do mesmo prefeito, foi a vez do Cedro ser tombado, com alegação de estar condenado por cupins.
Reportagem em: Blog do Rigon, de 23/05/2026
https://angelorigon.com.br/2026/05/23/cedro-removido/
No momento em que li a reportagem sobre o cedro, me veio à mente o diálogo que criei, em 2007, entre as duas árvores, mediadas pelos pássaros que iam e vinham com as notícias.
O que diriam os passáros hoje? Pra quem contariam as notícias?
Segue o texto, conforme foi publicado, em 2007.
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Canafístula e o Cedro
terça-feira, dezembro 18, 2007 5:06:00 PM Publicado no Factorama Escrito por: Tania
Tait
A Canafístula e o Cedro eram amigos há décadas. A comunicação entre eles era
feita pelos mensageiros passarinhos. Os amigos viram a cidade crescer, avenidas
serem criadas, asfalto chegando e prédios surgindo. Pessoas indo e vindo.
Aí no início dos anos 2000, o Cedro foi palco de uma discussão ampla na cidade.
O motivo: ele estava bem no meio de uma avenida que seria continuada, pois
começava lá do outro lado da cidade e agora chegava até ali. Ele teria que ser
retirado do local.
A amiga Canafístula acompanhava as novidades pelas mensagens dos pássaros. E
vinha gente de todo tipo defendendo o Cedro. A administração municipal da época
resolveu levar a discussão para o Conselho do Meio Ambiente, o qual deu o
parecer final: o Cedro fica.
Hoje, o Cedro está lá e os engenheiros criaram uma avenida com curva para que
ele permanecesse no local. Respeitou-se o meio ambiente, respeitou-se a
comunidade e respeitou-se o Cedro.
A Canafístula ficou feliz com o resultado e os dois amigos continuaram trocando
impressões sobre o clima, o movimento da cidade, o aumento de pessoas e de
carros.
Um dia, a Canafístula contou ao Cedro que estavam mexendo na avenida que ficava
perto dela para rebaixar a linha férrea. O Cedro, meio cismado por causa da sua
própria história, perguntou se não teria problema pra ela. A Canafístula então
respondeu: imagina, se naquela época não conseguiram derrubar você, por que
agora vão conseguir? E olha que tudo indica que sou mais velha que você,
portanto, vão me respeitar mais ainda.
E se despediram tranqüilos, por meio dos pássaros. No entanto, os pássaros e o
Cedro ficaram cismados com a nova obra. O Cedro, então, pediu aos pássaros que
ficassem vigiando, pois não estava com uma boa sensação a respeito do assunto.
Muitos pássaros já haviam contado ao cedro sobre árvores derrubadas na cidade
pela administração municipal atual com o objetivo de deixar fachadas de
empresas mais visíveis e outros motivos estranhos. Também, os pássaros
moradores ao redor da rodoviária velha haviam comentado sobre a forma como o
patrimônio da cidade estava sendo tratado. Os pássaros contavam, ainda, como
foi a inauguração de uma nova avenida no centro da cidade, sem sequer uma
árvore plantada. Fato que gerou polêmica, manifestações e que, depois, a
prefeitura resolveu que podia plantar árvores ali.
Resultado de tantas reflexões é que o Cedro não conseguiu parar de pensar na
amiga Canafístula, sempre tão confiante nas pessoas. Claro, tinha motivos para
essa confiança, pois ela sempre fora bem tratada.
Mas aí o pior aconteceu, resolveram cortar a Canafístula. Teve até uma
mobilização do pessoal do meio ambiente e um jornalista que subiu na árvore e
disse que não desceria até que chegasse uma ordem oficial para o corte. Os
pássaros foram correndo sossegar o Cedro, que estava apavorado, com as notícias
que chegavam. Tem gente protegendo a amiga Canafístula, fique tranqüilo, ela
não vai ser cortada.
Mais tarde os pássaros voltaram, cabisbaixos, voando sem vontade e o Cedro logo
entendeu que não teria mais notícias da amiga Canafístula. Ela e todos que a
amavam foram enganados.
A administração municipal atual não agiu como a outra administração que
integrou o Cedro à avenida. A administração atual não conversou com o Conselho
de Meio Ambiente, não conversou com a população e não buscou uma alternativa
para que a Canafístula continuasse ali integrada à obra. Enfim, derrubou-se uma
árvore centenária como se fosse algo comum, no cotidiano de sua atuação.
Desrespeitou-se o meio ambiente e a história de uma família pioneira.
E lá está o amigo Cedro no meio da Av. Gurucaia, entristecido pela perda da
amiga e torcendo muito para que as outras árvores da cidade consigam sobreviver
a essa administração municipal. Ele, o Cedro, sabe que sua amiga cumpriu bem
seu papel na natureza e deixou uma marca de dignidade e respeito nas pessoas,
nos pássaros e nas outras árvores que conviveram com ela.
A esperança do Cedro é que essa marca possa chegar até as pessoas que detêm o
poder e que elas entendam que fazem parte da natureza e que todos os seus atos
desencadeiam outros atos que ferem o mundo em que vivemos.
* Professora do Departamento de Informática da UEM, Coordenadora da Associação
Maria do Ingá – Direitos da Mulher. Maringá, 12/12/2007.
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