Como toda adolescente, tenho as lembranças dos passeios pela cidade, do Parque do Ingá, da pista de patinação, dos passeios na Av. Herval, da sorveteria Espucreme, dos cinemas, das andanças de bicicleta, do treino de natação no Clube Olímpico, entre tantas. Talvez pelo privilégio de morar na área central da cidade, eu tenha algumas lembranças distintas de quem morava nos bairros mais afastados.
Mas,
além das lembranças juvenis, eu tenho outras, as quais eu não compreendia muito
bem na época, mas que me incomodavam. Destaco algumas: a frase “Brasil, ame-o
ou deixei-o”; o desvio do assunto de um professor em sala de aula, as notícias estranhas
do Jornal Nacional, meu pai contar que sumiram pessoas em Maringá e a
interpretação das músicas nas aulas de português.
Maringá
está situada no norte do Paraná, conta, atualmente, com mais de 400 mil
habitantes e fez 78 anos. Entretanto, na minha infância e adolescência, a
cidade era considerada pequena, jovem e praticamente todo mundo se conhecia. Ao
olhar para o passado, parece incrível pensar que aqui existiam pessoas que
discordavam do governo da ditadura militar (de 1964 a 1985) e atuavam contra
ele. Mas, elas existiram e muitas pesquisas narram essa parte da história da
cidade, inclusive com relação as mulheres que atuaram neste campo, as quais
narro no livro “as mulheres na luta política” (Editora CRV, 2020).
Voltemos
às lembranças da adolescência. Nitidamente, me vem à mente, as fitinhas com a
frase “Brasil, ame-o ou deixe-o”, embalada pela música “Eu te amo meu Brasil”, composição
de Dom, da dupla Dom & Ravel e lançada pela banda Os Incríveis, em 1970. A música foi criada como hino da Copa
do Mundo, mas foi usada como propaganda pelo governo da ditadura militar.
A
segunda lembrança, já no primeiro ano do ensino médio (na época, chamava científico),
o professor pediu pra lermos a Constituição Federal Brasileira. Na leitura,
encontrei a eleição pra governador e me chamou atenção. Na aula, perguntei pra
ele por que os governadores não eram eleitos se estava na Constituição. Ele
desconversou, ficou vermelho e não respondeu. Na época, eu não entendi que se
ele comentasse, corria o risco de ser preso. O ano era 1976. Fui pesquisar por conta
própria e encontrei que: “o governo militar,
instituído em 1964, proibiu o voto direto para presidente da República e
representantes de outros cargos majoritários, como governador, prefeito e
senador”.
Talvez
percebendo meu interesse juvenil por política e como eu ficava brava assistindo
o Jornal Nacional, chamando as notícias de mentirosas, meu pai contava que
sumiram pessoas na região de Maringá, que eram contra o governo. Segundo ele,
professores, jornalistas e sindicalistas simplesmente desapareciam e ninguém
sabia deles. Na época, minha mãe me proibiu de assistir o jornal, pois segundo
ela, eu ficava muito nervosa. Tenho a impressão que os dois combinavam o que
fazer com a filha estudiosa e curiosa, “perguntadeira” demais.
As
músicas sempre fizeram parte da minha vida, as festas da família sempre eram
regadas à música, cantadas e ensinadas pela minha avó Marianna. Portanto, o
interesse pela interpretação dos textos das músicas foi natural e me encantou
ser apresentada ao Chico Buarque. Lembro a primeira vez que li: “Apesar de você,
amanhã há de ser outro dia”. Não era recado pra uma mulher, era pro governo da
ditadura militar.
Então,
foi assim, uma adolescente que usava óculos desde os cinco anos de idade,
andava de bicicleta e nadava, gostava dos livros e das músicas, observou o mundo
ao seu redor e, nas entrelinhas do cotidiano, entre as danças nas tardes de domingo
nas casas de amigas, percebeu que alguma coisa não estava certa, pois havia um
certo medo pairando no ar do mundo dos adultos.
Anos
depois, com tristeza, ela conheceu a história e viu que sua impressão estava
certa. O medo que pairava no ar fazia sentido.
