Para compartilhar idéias!







segunda-feira, 25 de maio de 2026

50 anos do Departamento de Informática da UEM com festa

No dia 23/05, reuniram-se, num jantar, professores, professoras, funcionários e funcionárias,  estudantes e egressos que compartilharam os 50 anos do Departamento de Informática (DIN) da UEM.

Particularmente, me senti muito feliz com a comemoração e o reencontro com pessoas com as quais compartilhei minha carreira acadêmica e amizades. 

Agora na aposentadoria, recebemos homenagem na festa, com uma linda placa comemorativa pelos 50 anos do DIN. 

Parabéns à equipe organizadora, comandada pela Professora Josiane Pinheiro, com tanta maestria.

Parabéns à todos e à todas que construíram o DIN ao longo das 5 décadas.













Departamento de Informática da UEM completa 50 anos


Em 2026, o Departamento de Informática (DIN) da Universidade Estadual de Maringá celebra 50 anos de história — uma trajetória construída por pessoas que, ao longo das décadas, dedicaram seu talento, conhecimento e compromisso ao ensino, à pesquisa, à inovação e ao desenvolvimento da sociedade.

Essa trajetória consolidou o DIN como um polo de geração e disseminação de conhecimento na área de Tecnologia da Informação. O departamento foi criado em maio de 1976, conforme Resolução 001/76-REITORIA, como uma sub-unidade do Centro de Tecnologia, logo após a implantação do curso de Tecnólogo em Processamento de Dados (PD), que teve início em 1975. Na época o curso fazia parte de um programa nacional de formação de um profissional que pudesse contribuir para o crescimento de uma área que estava necessitando de mão-de-obra especializada.

Pioneiro na região reconhecida como agrícola, o curso de PD, logo chamou a atenção e o interesse dos estudantes, os quais formados se dirigiam para Curitiba ou São Paulo.

Com o crescimento das oportunidades na região, o DIN optou pela criação do curso de Ciência da Computação, um curso de bacharelado, mais abrangente do que o curso de tecnólogo, em período integral, implantado em 1988.

Em novembro de 1991, foi criado o PET-Informática que consolidou-se como uma das iniciativas mais importantes para a formação acadêmica e humana dos estudantes do DIN. Ao longo de sua trajetória, o PET tem promovido a integração entre ensino, pesquisa e extensão, estimulando a excelência acadêmica, o trabalho colaborativo, a inovação e o compromisso social. Mais do que um espaço de formação complementar, o PET-Informática tornou-se parte da própria história do departamento, contribuindo para a formação de profissionais e docentes que hoje atuam em diferentes áreas da Computação.

Em 1997, o DIN criou o curso de Bacharelado em Informática, no período noturno, em substituição ao curso de Tecnólogo em Processamento de Dados que foi paulatinamente extinto. Os cursos passaram por revisões curriculares em 2009, 2017 e 2023.

Além dos cursos de Ciência da Computação e de Informática, o DIN também é responsável pela ênfase de Software do curso de Engenharia de Produção, além de disciplinas na área de computação de vários outros cursos de graduação da UEM.

Também em 2002, com o objetivo de contribuir para a formação de recursos humanos e atuar na pesquisa em Informática, foi criado o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação (PCC), com a oferta do mestrado. Por mais de uma década o DIN ainda ofertou turmas da Especialização em Desenvolvimento de Sistemas para Web e atualmente oferece disciplinas em alguns outros cursos de especialização.  

De 2004 a 2009 o DIN hospedou o curso de Engenharia de Produção até que o departamento se estruturasse.

Em 2009, o DIN passou a contar com um novo edifício, no bloco C-56, que reúne um total de mais de 3.400 metros quadrados de área construída.

Em 2021, foi aprovado o curso de Doutorado em Ciência da Computação, que ofertou a primeira turma em 2022.

Em 2026, o curso de Bacharelado em Informática se tornou Bacharelado em Engenharia de Software, alinhando o curso à demanda da sociedade e às diretrizes curriculares da Sociedade Brasileira de Computação.

Visando oportunizar aos alunos se preparem para atuar no meio corporativo, o Departamento apoiou a criação da Softcom, uma empresa júnior de softwares, suporte e capacitação em Ciência da Computação e Informática, supervisionada por um docente do DIN. Em 2025, por iniciativa dos alunos, surgiu uma nova empresa júnior, chamada Main, alinhada às demandas do mercado e em franca expansão.

Completando o leque de ferramentas institucionais oferecidas pelo DIN visando a contribuir na formação dos estudantes, está em vigor o Programa de Tecnologia da Informação e Comunicação (PROTIC), que tem como objetivo desenvolver e apoiar as iniciativas de pesquisa, ensino, extensão e inovação de servidores e acadêmicos dos cursos afetos ao Departamento.

No DIN, também, em sinergia com a Sociedade Brasileira de Computação por meio do Programa Meninas Digitais, em 2017 foi criado o projeto Conectadas, que visa incentivar a entrada e permanência das meninas na área de computação.

Em sintonia com o desenvolvimento regional, o DIN atuou e participou ativamente na criação do Arranjo Produtivo Local de Software, cuja iniciativa contribuiu para que a região se tornasse um polo de desenvolvimento de software.

Assim, o DIN cumpre sua finalidade de

  • formar cidadãos éticos, críticos e reflexivos nas áreas de computação e informática;

  • promover, de forma indissociável, o ensino, a pesquisa e a extensão nas áreas da computação e informática; e

  • prestar serviços à comunidade. 

Nesse período, o DIN formou milhares de profissionais — tecnólogos, bacharéis, especialistas, mestres e doutores — que hoje atuam de forma significativa na academia e na indústria de software, contribuindo para o avanço tecnológico em diferentes contextos e regiões.

Mais do que celebrar uma data, queremos celebrar as pessoas que fizeram e fazem parte dessa história. Nossos parabéns e agradecimentos a cada um e a cada uma que contribuiu e contribui para que o DIN seja uma referência importante na área de TI, nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e inovação.

Texto: Profa. Tania Tait
Maio de 2026 - postado em https://www.uem.br/din

A Canafístula e o Cedro: o triste fim de uma história

Escrevi o texto A Canafístula e o Cedro em 2007, quando a prefeitura de Maringá, na primeira gestão Silvio Barros, derrubou a canafístula centenária, mesmo diante da reação popular, inclusive com jornalista se agarrando a árvore.

No texto, publicado no blog Factorama, eu descrevia a amizade entre as duas árvores, a preocupação da Canafístula com o Cedro que ficou mantido no lugar com desvio da avenida (Gestão José Cláudio) e depois, a preocupação do Cedro com a Canafístula. 

Agora, em 2026, quase 20 anos depois, na terceira gestão do mesmo prefeito, foi a vez do Cedro ser tombado, com alegação de estar condenado por cupins. 

 
Reportagem em: Blog do Rigon, de 23/05/2026
https://angelorigon.com.br/2026/05/23/cedro-removido/


No momento em que li a reportagem sobre o cedro, me veio à mente o diálogo que criei, em 2007, entre as duas árvores, mediadas pelos pássaros que iam e vinham com as notícias.
O que diriam os passáros hoje? Pra quem contariam as notícias? 

Segue o texto, conforme foi publicado, em 2007.

========================================================================A Canafístula e o Cedro

terça-feira, dezembro 18, 2007 5:06:00 PM Publicado no Factorama     Escrito por: Tania Tait


A Canafístula e o Cedro eram amigos há décadas. A comunicação entre eles era feita pelos mensageiros passarinhos. Os amigos viram a cidade crescer, avenidas serem criadas, asfalto chegando e prédios surgindo. Pessoas indo e vindo.
Aí no início dos anos 2000, o Cedro foi palco de uma discussão ampla na cidade. O motivo: ele estava bem no meio de uma avenida que seria continuada, pois começava lá do outro lado da cidade e agora chegava até ali. Ele teria que ser retirado do local.
A amiga Canafístula acompanhava as novidades pelas mensagens dos pássaros. E vinha gente de todo tipo defendendo o Cedro. A administração municipal da época resolveu levar a discussão para o Conselho do Meio Ambiente, o qual deu o parecer final: o Cedro fica.
Hoje, o Cedro está lá e os engenheiros criaram uma avenida com curva para que ele permanecesse no local. Respeitou-se o meio ambiente, respeitou-se a comunidade e respeitou-se o Cedro.
A Canafístula ficou feliz com o resultado e os dois amigos continuaram trocando impressões sobre o clima, o movimento da cidade, o aumento de pessoas e de carros.
Um dia, a Canafístula contou ao Cedro que estavam mexendo na avenida que ficava perto dela para rebaixar a linha férrea. O Cedro, meio cismado por causa da sua própria história, perguntou se não teria problema pra ela. A Canafístula então respondeu: imagina, se naquela época não conseguiram derrubar você, por que agora vão conseguir? E olha que tudo indica que sou mais velha que você, portanto, vão me respeitar mais ainda.
E se despediram tranqüilos, por meio dos pássaros. No entanto, os pássaros e o Cedro ficaram cismados com a nova obra. O Cedro, então, pediu aos pássaros que ficassem vigiando, pois não estava com uma boa sensação a respeito do assunto.
Muitos pássaros já haviam contado ao cedro sobre árvores derrubadas na cidade pela administração municipal atual com o objetivo de deixar fachadas de empresas mais visíveis e outros motivos estranhos. Também, os pássaros moradores ao redor da rodoviária velha haviam comentado sobre a forma como o patrimônio da cidade estava sendo tratado. Os pássaros contavam, ainda, como foi a inauguração de uma nova avenida no centro da cidade, sem sequer uma árvore plantada. Fato que gerou polêmica, manifestações e que, depois, a prefeitura resolveu que podia plantar árvores ali.
Resultado de tantas reflexões é que o Cedro não conseguiu parar de pensar na amiga Canafístula, sempre tão confiante nas pessoas. Claro, tinha motivos para essa confiança, pois ela sempre fora bem tratada.
Mas aí o pior aconteceu, resolveram cortar a Canafístula. Teve até uma mobilização do pessoal do meio ambiente e um jornalista que subiu na árvore e disse que não desceria até que chegasse uma ordem oficial para o corte. Os pássaros foram correndo sossegar o Cedro, que estava apavorado, com as notícias que chegavam. Tem gente protegendo a amiga Canafístula, fique tranqüilo, ela não vai ser cortada.
Mais tarde os pássaros voltaram, cabisbaixos, voando sem vontade e o Cedro logo entendeu que não teria mais notícias da amiga Canafístula. Ela e todos que a amavam foram enganados.
A administração municipal atual não agiu como a outra administração que integrou o Cedro à avenida. A administração atual não conversou com o Conselho de Meio Ambiente, não conversou com a população e não buscou uma alternativa para que a Canafístula continuasse ali integrada à obra. Enfim, derrubou-se uma árvore centenária como se fosse algo comum, no cotidiano de sua atuação. Desrespeitou-se o meio ambiente e a história de uma família pioneira.
E lá está o amigo Cedro no meio da Av. Gurucaia, entristecido pela perda da amiga e torcendo muito para que as outras árvores da cidade consigam sobreviver a essa administração municipal. Ele, o Cedro, sabe que sua amiga cumpriu bem seu papel na natureza e deixou uma marca de dignidade e respeito nas pessoas, nos pássaros e nas outras árvores que conviveram com ela.
A esperança do Cedro é que essa marca possa chegar até as pessoas que detêm o poder e que elas entendam que fazem parte da natureza e que todos os seus atos desencadeiam outros atos que ferem o mundo em que vivemos.

* Professora do Departamento de Informática da UEM, Coordenadora da Associação Maria do Ingá – Direitos da Mulher. Maringá, 12/12/2007.

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A necessária redução da jornada de trabalho

No começo da minha vida profissional, após formada pela UEM, na área de informática, trabalhei como programadora de computador e analista de sistemas em uma grande rede de supermercado (que não existe mais). O horário de trabalho era de 8 horas por dia e aos sábados. Entravamos às 8h e saímos às 18, com  1h de almoço e aos sábados, das 8 às 12. Havia compensação durante a semana para não trabalhar aos sábados o dia todo. Já no estágio, em Londrina, vivenciei a jornada de trabalho e o pouco tempo que as pessoas possuíam pra cuidar de suas casas, crianças etc. A mesma situação ocorria em uma grande cooperativa agrícola da região, na qual fui analista de sistemas e programadora.

A partir dessas experiências, me chamava muito a atenção o tempo que as pessoas passavam no trabalho em comparação com o tempo mínimo que passavam com suas famílias ou outras atividades. Havia o comentário de que era trabalho remunerado em regime de escravidão, pois as pessoas não tinham tempo pra elas, apenas para o trabalho. Quem não trabalhava aos sábados era por compensação em horas a mais  de segunda a sexta-feira.

Estamos falando de experiências particulares nos anos 1980 e, naquela época alguns países começavam a experimentar jornadas diárias menores do que as jornadas de 8h, com resultados considerados relevantes em termos de produtividade e contribuição de funcionários e funcionárias.

Acabar com a escala 6 x 1 (trabalhar seis dias e descansar um dia), obviamente, não abala o sistema capitalista, pois foi comprovado por algumas experiências que essa redução de jornada, tendo 5 dias trabalhados e dois dias de descanso (5x2) impacta positivamente na lucratividade das empresas e não afunda o país como alguns contrários afirmam.

Para as mulheres trabalhadoras, por sua vez, a redução da jornada contribui para uma melhora considerável de qualidade de vida, pois, em sua maioria, elas chegam, em seus finais de semana ou dia de descanso,  com a escala da faxina de suas casas, da lavagem de roupas etc, ou seja, transformam seu dia de descanso em mais um dia de trabalho, o que significa, na prática, uma escala de 7x0, sete dias trabalhados e nenhum dia de descanso.

Muitas mudanças, também,  ocorreram no mundo do trabalho desde a última  reforma trabalhista de 2017, que levou as pessoas a situações como pjtização, terceirização, uberização, trabalho informal, trabalho on line e tantas outras, nas quais as pessoas acreditam que são donas de seu próprio trabalho, não dependem da CLT, mas no entanto, seguem desprotegidas agora e no futuro e, continuam trabalhando sem tempo para si e suas famílias.

Por fim, acredito que seja importante e necessária a aprovação de uma jornada de trabalho menor para que as pessoas tenham mais tempo para viver com dignidade e possibilidade de estar mais dias com sua família ou realizar atividades de esporte, cultura ou lazer ou outras que as interessem.


Imagem extraída da Internet


segunda-feira, 20 de abril de 2026

A classe trabalhadora sai em desvantagem na corrida eleitoral

Dados divulgados, recentemente, apontam que dos 594 parlamentares que compõem o Congresso Nacional, 273 são empresários e 160 são fazendeiros, totalizando 72% das cadeiras ocupadas por representantes desses setores. (https://lermais.com.br/congresso-dominado-empresarios-e-fazendeiros-ocupam-72-das-cadeiras-2/) Outro dado demonstra que, também, menos de 20% das cadeiras no Congresso são ocupadas por  mulheres.

Essa concentração de lideranças ligadas ao empresariado e fazendeiros, homens brancos, conservadores e ricos, em sua maioria, torna-se um desafio para as pautas necessárias para o conjunto da população, tais como as políticas públicas de moradia, educação e saúde e condições de trabalho, combate à violência contra a mulher, contra o racismo e contra homofobia e, também, na defesa do meio ambiente. Muitas dessas políticas públicas deixam nítida a postura desse grupo dos deputados na Câmara, notadamente com votos contra os interesses da maioria da população. Não se trata, portanto, apenas de uma posição ideológica, pois muitos destes deputados consideram que as políticas públicas, mesmo de interesse nacional, vão contra seus interesses econômicos e financeiros particulares.

Essa situação da concentração de eleitos/as da classe empresarial é reproduzida, também, nas câmaras municipais e assembleis legislativas estaduais. No executivo (prefeituras, estados e governo federal), a situação não é diferente, temos poucas prefeitas e governadoras e tivemos apenas uma mulher na Presidência da República.

Além de se candidatarem pra defender suas mordomias, classe social etc e viver às custas do Estado que tanto atacam, os empresários e fazendeiros eleitos defendem o sistema como está ou apresentam projetos pra penalizar a classe trabalhadora, aqui incluídos a classe média assalariada e profissionais liberais ou autônomos, os quais não se enxergam como trabalhadores/as. Um exemplo é a redução de jornada de trabalho para 5x2 (cinco dias trabalhados para dois dias de descanso), a qual gera polêmica com alegações equivocadas de quebra econômica, incentivo à vagabundagem de trabalhadores se a nova escala de trabalho for aprovada ou, ainda, absurdos como bolsa patrão para compensar a suposta perda econômica.

Pela legislação eleitoral, todos e todas, maiores de idade, podem se candidatar, independente de sexo, religião, raça, etnia ou posição ideológica. (https://www.jusbrasil.com.br/artigos/quais-os-requisitos-necessarios-para-se-concorrer-a-uma-eleicao-no-brasil/1150140742) No entanto, pra fazer campanha, mesmo existindo fundo eleitoral, a pessoa candidata precisa de tempo e dinheiro. Exatamente nessa necessidade de tempo e dinheiro que as diferenças começam na largada eleitoral, inclusive na chamada “pré-campanha” que na prática, é campanha eleitoral.

Quando alguém da classe trabalhadora se candidata, se não for demitido por ser de outra posição ideológica diferente do patrão/patroa, não terá licença e só poderá fazer campanha no período que sobra e nos finais de semana. Ao contrário, o empresário ou empresária (ou fazendeiro ou financiados por eles) que se candidata poderá fazer campanha quando e como quiser.

Então, na corrida eleitoral, trabalhadores e trabalhadoras saem em desvantagem e com muitos obstáculos à frente, desde a largada, pois além de buscar votos, precisam cumprir suas obrigações no mundo do trabalho para sobreviver. Destaca-se que  as mulheres saem em mais desvantagem do que os homens, pois lidam com a dupla jornada de trabalho e ao incluir a política, se sobrecarregam ainda mais, além do preconceito e da violência política que sofrem.

Esse desequilíbrio de representação na política reforça distorções existentes na sociedade para as ações de igualdade e se torna um desafio para a democracia pois, ao mesmo tempo que as pessoas podem se candidatar e serem eleitas, a maior parcela da população tem mais dificuldade e menos visibilidade para ser eleita para um cargo legislativo ou executivo.

Isso precisa mudar!

Imagem extraída da Internet


terça-feira, 31 de março de 2026

O valor dos números e a arrogância numérica

Duas frases me chamaram a atenção recentemente. Não vou dizer o nome das pessoas e nem o contexto. O que interessa é o conteúdo e o valor dado por elas.

- façam mais de 100 mil votos como eu fiz e depois conversamos;

- quando a pessoa tiver mais de 50 mil seguidores como eu, darei atenção a ela.

Desde crianças, aprendemos sobre os números, quando começamos a usar os dedinhos pra contar 1, 2 3... ou até 10 pra brincar de esconde-esconde. Depois, para algumas crianças, os números se tornam um tormento ligados ao ensino da matemática. Quem não se lembra da famosa tabuada?

 E quando as crianças crescem são marcadas com números. Aliás, desde alguns anos, as crianças tem CPF desde que nascem. Aí vem o número da classificação no vestibular, se fizer, o salário, as notas e as contas pra pagar. Enfim, o número não é apenas o da casa que moramos ou do RG, ele está em tudo e pauta nossa existência.

Na sua definição básica, o “número é uma entidade matemática fundamental e abstrata, utilizado para caracterizar a contagem, a ordenação, medição ou identificação .  Os números possuem uma relação com elementos quaisquer, sejam reais ou não.” https://www.todamateria.com.br/numeros/

Entretanto, pela história, os números passaram a representar a riqueza ou a pobreza dos povos e das pessoas, o poder de alguns sobre outros e a classificar quem tem mais ou tem menos poder. Da contagem das pedras a contagem do lançamento de mísseis, tivemos muitas versões para a representação dos números.

E chegamos ao processo eleitoral e ao uso das redes digitais, os quais tem, em comum, a disseminação de informações, verdadeiras ou duvidosas, que alcança um número imenso de pessoas.

Dentro deste contexto, surge um novo valor dado ao número: o número de quantas pessoas são alcançadas ou alcançáveis, como se isso fosse sinônimo de uma espécie de riqueza ou capital.

E assim, tem-se o que pode ser chamado de “arrogância numérica” que faz com que tanto um político eleito como um influenciador digital se sintam empoderados e mais importantes do que as demais pessoas. Não é mais a arrogância do saldo bancário (que as vezes vem junto com a exposição política ou midiática), agora é a exposição que conta.

Claro que as pessoas que expõem suas ideias, tanto na vida política como no mundo virtual, ou em ambos, querem ser ouvidas, lidas, curtidas e divulgadas, afinal são espaços importantes para apresentar seus pensamentos e propostas.

O problema é quando essa ação e esse alcance se tornam moeda de valor em detrimento de outros valores. Ouvir quem não fez votos ou quem não usa as redes digitais, mas possui experiência e conhece bem sua própria área de trabalho ou atuação pode contribuir muito para novas soluções, novas ideias e novos movimentos.

Afinal, as pessoas podem não ter tantos votos ou nem seguidores, mas elas têm acesso à uma urna eletrônica, numa eleição democrática, na qual podem digitar os números de seus candidatos ou candidatas e, aí, está o símbolo do seu poder ao digitar o número no qual acredita.

Esse poder, numa democracia, tem mais valor numérico do que muitas pessoas possam imaginar, pois a pessoa vai definir os rumos que deseja para sua cidade, seu estado ou seu país.

Então, vamos dar atenção, também, para aquelas pessoas que não fizeram e nem farão 100 mil votos, não têm e nem terão 50 mil seguidores, pois esses números podem ser passageiros e não terem significado,  se não servirem para melhorar a vida das pessoas.


Imagem extraída da Internet


domingo, 22 de março de 2026

A faca e o boné

Em conversa com minha prima-irmã Rose, relembramos fatos que vivemos com nossos pais, Angelo e Anselmo Sidnei Tait. Irmãos grudados e amorosos que se casaram com duas irmãs, Laura (minha mãe) e Maria Calvi (minha madrinha de crisma) e geraram uma família única, a Calvi Tait. Crescemos juntos e, muitas vezes, pelos sobrenomes que herdamos, as pessoas pesavam que fossemos irmãos. O cuidado deles e delas para conosco sempre foi presente, desde a infância até a vida adulta.

Certamente, meu pai e tio Sid não combinaram, mas foram atores do mesmo cuidado quando eu cursava doutorado em Florianópolis. Talvez por ser a primeira da geração a “voar” pra outras paragens, talvez por me verem como menina, talvez por conhecerem as estradas por terem sido caminhoneiros ao desbravar as terras do norte do Paraná, o fato é que com 36 anos de idade e dirigindo sozinha nas estradas, os dois manifestavam suas preocupações e davam muitos conselhos para a motorista.

Aqui entram a faca e o boné.

A faca de churrasco foi um presente que dei para o meu pai, churrasqueiro da família e do melhor churrasco. Diferente da faca tradicional que ele usava, a que o presentei era uma faca estilizada, com cabo de couro etc. Quando eu comecei a viajar para o doutorado, ele chega pra mim com a faca:

- leva com você, coloca no porta luvas do carro. Vai que você precisa.

- pra que pai, nem sei usar uma faca

- ué, pode precisar pra cortar uma laranja, uma corda...

- tá bom, pai.

 

Entendi o que ele queria dizer, era, no fundo, pra me proteger. Assim, a faca de churrasco com sua bainha de couro morou por anos dentro do porta-luvas de cada carro que tive. Nunca foi usada, mas estava lá e de certa forma, isso o tranquilizava.

O boné foi indicação do tio Sid, num almoço de família.

- menina, perigoso dirigir na estrada sozinha até Florianópolis.

- fica tranquilo tio. Penso assim, vou de Maringá a Apucarana, Apucarana Ponta Grossa, Ponta Grossa Curitiba, Curitiba Joinville,  Joinville Camboriu e  Camboriu Florianópolis. Pronto Cheguei,

- tá bom, mas, pelo menos, põe um boné nessa cabeça pra esconder o cabelo e pensarem que é um homem.

 

Dei risada e falei pra ele  ficar tranquilo que eu era cuidadosa na estrada e não dava bobeira, só parava pra abastecer. Sempre andei com os cabelos presos devido ao  calor  e a cabeleira, mas não usei o boné, ia esquentar mais ainda. Quando tinha almoço de família e ele sabia que eu ia viajar, sei que ficava preocupado. Na chegada, eu telefonava pra ele, ainda não havia celular.

- Cheguei, tio Sid.

- Graças a Deus

Quando eu contava  esses episódios, algumas pessoas diziam que isso era machismo, pois eles não fariam a mesma coisa se eu fosse um homem.

Certamente, pela geração deles e pela sociedade que viviam, eram machistas como muitos e muitas de nós, que nos descontruímos todos os dias na busca de uma sociedade, na qual mulheres e homens sejam tratados da mesma forma em direitos e obrigações.

Mas, pra mim, que recebia todo esse carinho, eu via como muito amor por parte deles, tanto que os chamava de meus dois pais. Privilégio ter um pai e um segundo pai pra cuidar. Sempre ouvi os conselhos dos dois, que foram muitos. Alguns eu sorria, outros eu seguia.

No final das contas, não tive problemas na estrada e comemoramos a defesa do meu doutorado com um almoço em que eles estavam felizes pela conquista da “menina” e por ela parar de “pegar a estrada”.

Mal sabíamos que quatro anos depois, num intervalo de apenas seis meses, os dois iriam embora antes do combinado, acometidos por doenças.

Nossos amores.