Em conversa com minha prima-irmã Rose, relembramos fatos que vivemos com nossos pais, Angelo e Anselmo Sidnei Tait. Irmãos grudados e amorosos que se casaram com duas irmãs, Laura (minha mãe) e Maria Calvi (minha madrinha de crisma) e geraram uma família única, a Calvi Tait. Crescemos juntos e, muitas vezes, pelos sobrenomes que herdamos, as pessoas pesavam que fossemos irmãos. O cuidado deles e delas para conosco sempre foi presente, desde a infância até a vida adulta.
Certamente,
meu pai e tio Sid não combinaram, mas foram atores do mesmo cuidado quando eu
cursava doutorado em Florianópolis. Talvez por ser a primeira da geração a “voar”
pra outras paragens, talvez por me verem como menina, talvez por conhecerem as
estradas por terem sido caminhoneiros ao desbravar as terras do norte do Paraná,
o fato é que com 36 anos de idade e dirigindo sozinha nas estradas, os dois
manifestavam suas preocupações e davam muitos conselhos para a motorista.
Aqui
entram a faca e o boné.
A
faca de churrasco foi um presente que dei para o meu pai, churrasqueiro da família
e do melhor churrasco. Diferente da faca tradicional que ele usava, a que o
presentei era uma faca estilizada, com cabo de couro etc. Quando eu comecei a
viajar para o doutorado, ele chega pra mim com a faca:
- leva com você, coloca no porta
luvas do carro. Vai que você precisa.
- pra que pai, nem sei usar uma
faca
- ué, pode precisar pra cortar uma
laranja, uma corda...
- tá bom, pai.
Entendi
o que ele queria dizer, era, no fundo, pra me proteger. Assim, a faca de churrasco
com sua bainha de couro morou por anos dentro do porta-luvas de cada carro que
tive. Nunca foi usada, mas estava lá e de certa forma, isso o tranquilizava.
O
boné foi indicação do tio Sid, num almoço de família.
- menina, perigoso dirigir na
estrada sozinha até Florianópolis.
- fica tranquilo tio. Penso assim,
vou de Maringá a Apucarana, Apucarana Ponta Grossa, Ponta Grossa Curitiba,
Curitiba Joinville, Joinville Camboriu e
Camboriu Florianópolis. Pronto Cheguei,
- tá bom, mas, pelo menos, põe um
boné nessa cabeça pra esconder o cabelo e pensarem que é um homem.
Dei
risada e falei pra ele ficar tranquilo
que eu era cuidadosa na estrada e não dava bobeira, só parava pra abastecer. Sempre
andei com os cabelos presos devido ao calor
e a cabeleira, mas não usei o boné, ia
esquentar mais ainda. Quando tinha almoço de família e ele sabia que eu ia
viajar, sei que ficava preocupado. Na chegada, eu telefonava pra ele, ainda não
havia celular.
- Cheguei, tio Sid.
-
Graças a Deus
Quando
eu contava esses episódios, algumas
pessoas diziam que isso era machismo, pois eles não fariam a mesma coisa se eu
fosse um homem.
Certamente,
pela geração deles e pela sociedade que viviam, eram machistas como muitos e
muitas de nós, que nos descontruímos todos os dias na busca de uma sociedade, na
qual mulheres e homens sejam tratados da mesma forma em direitos e obrigações.
Mas,
pra mim, que recebia todo esse carinho, eu via como muito amor por parte deles,
tanto que os chamava de meus dois pais. Privilégio ter um pai e um segundo pai
pra cuidar. Sempre ouvi os conselhos dos dois, que foram muitos. Alguns eu sorria,
outros eu seguia.
No
final das contas, não tive problemas na estrada e comemoramos a defesa do meu
doutorado com um almoço em que eles estavam felizes pela conquista da “menina”
e por ela parar de “pegar a estrada”.
Mal sabíamos que quatro anos depois, num intervalo de apenas seis meses, os dois iriam embora antes do combinado, acometidos por doenças.
Nossos amores.






