Duas frases me chamaram a atenção recentemente. Não vou dizer o nome das pessoas e nem o contexto. O que interessa é o conteúdo e o valor dado por elas.
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façam mais de 100 mil votos como eu fiz e depois conversamos;
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quando a pessoa tiver mais de 50 mil seguidores como eu, darei atenção a ela.
Desde
crianças, aprendemos sobre os números, quando começamos a usar os dedinhos pra
contar 1, 2 3... ou até 10 pra brincar de esconde-esconde. Depois, para algumas
crianças, os números se tornam um tormento ligados ao ensino da matemática.
Quem não se lembra da famosa tabuada?
E quando as crianças crescem são marcadas com
números. Aliás, desde alguns anos, as crianças tem CPF desde que nascem. Aí vem
o número da classificação no vestibular, se fizer, o salário, as notas e as
contas pra pagar. Enfim, o número não é apenas o da casa que moramos ou do RG,
ele está em tudo e pauta nossa existência.
Na
sua definição básica, o “número é uma entidade matemática fundamental e
abstrata, utilizado para caracterizar a contagem, a ordenação, medição ou
identificação . Os números possuem uma
relação com elementos quaisquer, sejam reais ou não.” https://www.todamateria.com.br/numeros/
Entretanto,
pela história, os números passaram a representar a riqueza ou a pobreza dos
povos e das pessoas, o poder de alguns sobre outros e a classificar quem tem
mais ou tem menos poder. Da contagem das pedras a contagem do lançamento de
mísseis, tivemos muitas versões para a representação dos números.
E
chegamos ao processo eleitoral e ao uso das redes digitais, os quais tem, em
comum, a disseminação de informações, verdadeiras ou duvidosas, que alcança um
número imenso de pessoas.
Dentro
deste contexto, surge um novo valor dado ao número: o número de quantas pessoas
são alcançadas ou alcançáveis, como se isso fosse sinônimo de uma espécie de riqueza
ou capital.
E
assim, tem-se o que pode ser chamado de “arrogância numérica” que faz com que
tanto um político eleito como um influenciador digital se sintam empoderados e
mais importantes do que as demais pessoas. Não é mais a arrogância do saldo
bancário (que as vezes vem junto com a exposição política ou midiática), agora
é a exposição que conta.
Claro
que as pessoas que expõem suas ideias, tanto na vida política como no mundo
virtual, ou em ambos, querem ser ouvidas, lidas, curtidas e divulgadas, afinal
são espaços importantes para apresentar seus pensamentos e propostas.
O
problema é quando essa ação e esse alcance se tornam moeda de valor em
detrimento de outros valores. Ouvir quem não fez votos ou quem não usa as redes
digitais, mas possui experiência e conhece bem sua própria área de trabalho ou
atuação pode contribuir muito para novas soluções, novas ideias e novos
movimentos.
Afinal,
as pessoas podem não ter tantos votos ou nem seguidores, mas elas têm acesso à uma
urna eletrônica, numa eleição democrática, na qual podem digitar os números de
seus candidatos ou candidatas e, aí, está o símbolo do seu poder ao digitar o
número no qual acredita.
Esse
poder, numa democracia, tem mais valor numérico do que muitas pessoas possam
imaginar, pois a pessoa vai definir os rumos que deseja para sua cidade, seu
estado ou seu país.
Então,
vamos dar atenção, também, para aquelas pessoas que não fizeram e nem farão 100
mil votos, não têm e nem terão 50 mil seguidores, pois esses números podem ser
passageiros e não terem significado, se
não servirem para melhorar a vida das pessoas.






